Esopo 13

A andorinha e a cobra

Uma andorinha fez seu ninho num tribunal e saiu voando; nisso, uma cobra rastejou até lá e devorou os filhotes. Quando retornou e encontrou vazio o ninho, a andorinha pôs-se a gemer desesperadamente. Então outra andorinha tentou consolá-la, dizendo que ela não era a única a quem acontecera perder os filhos. E ela respondeu: “Mas choro não tanto por meus filhos quanto por ter sofrido agressão justamente neste lugar, onde os injustiçados encontram amparo”.

A fábula mostra que muitas vezes as desgraças se tornam mais cruéis para quem as sofre, quando partem de quem menos se espera.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 49

Esopo 92

A cauda e o corpo da cobra

Certa vez, a cauda de uma cobra achou que o certo era ela se pôr à frente do corpo e ser a primeira a andar. Então os outros membros disseram: “Como é que você vai nos conduzir, se não tem olhos nem nariz, como os outros animais?”. Mas não conseguiram convencê-la e, por fim, o bom senso foi derrotado. A cauda assumiu o comando e se pôs a guiar o corpo inteiro, arrastando-o às cegas, até que caiu num precipício rochoso. A cobra machucou a espinha e o corpo todo. Então a cauda, sacudindo-se, suplicou à cabeça: “Salve-nos, patroa, por favor. Fiz mal em tentar competir com você”.

Homens ardilosos e perversos que se revoltam contra os patrões a fábula censura.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 148

Esopo 103

A cobra e o caranguejo

Uma cobra e um caranguejo habitavam o mesmo lugar. Mas, enquanto ele se relacionava com a cobra de modo franco e bondoso, ela era sempre tortuosa e perversa. O caranguejo vivia incentivando a cobra a imitar seu comportamento e tratá-lo com retidão, mas ela não se deixava persuadir. Por isso, o caranguejo perdeu a paciência e, ao espreitá-la a dormir, deu um bote no pescoço e matou-a. E disse, ao vê-la estirada: “Não é agora depois de morta, minha cara, que você deve ficar reta, mas sim quando eu a incentivava e você não dava atenção!”.

Esta fábula pode ser propósito daqueles dita, com razão, a homens que em vida são perversos para com amigos, mas, depois de mortos, prestam benefícios a eles.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 160

Esopo 104

A cobra, a doninha e os ratos

Uma cobra e uma doninha estavam numa casa brigando. E os ratos de lá, que eram sempre devorados pelas duas, quando as viram brigando saíram para passear. Mas, assim que elas viram os ratos, suspenderam a briga e foram atrás deles.

Assim, também, no que concerne às cidades, aqueles que se intrometem nas querelas dos demagogos não percebem que se tornam um incômodo para os dois lados.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 161

Esopo 105

A cobra pisoteada e Zeus

Uma cobra foi perguntar a Zeus por que ela era pisoteada por inúmeras pessoas. Zeus, então, lhe disse: “Mas, se você tivesse picado o primeiro homem que lhe deu um pisão, o segundo não teria se atrevido a fazer o mesmo”.

A fábula mostra que aqueles que enfrentam os primeiros agressores tornam-se temíveis para os demais.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 162

Esopo 111

O corvo e a cobra

Ao avistar uma cobra dormindo num lugar ensolarado, um corvo faminto desceu voando e arrebatou-a, mas ela se voltou e lhe deu uma picada. Então ele disse, prestes a morrer: “Pobre de mim! Encontrei esse achado e, por causa dele, estou perdendo a vida!”.

Esta fábula poderia ser contada a propósito de um homem que, para achar um tesouro, pôs em perigo a própria vida.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 171

Esopo 193

O lavrador e a cobra

Enquanto rastejava, uma cobra matou o filho de um lavrador. Profundamente angustiado com isso, o lavrador pegou um machado, foi para junto da toca da cobra e ficou vigiando a fim de golpeá-la, tão logo ela viesse para fora. Assim que a cobra apontou, ele deu uma machadada, que não acertou a cobra, mas fendeu um bloco de pedra que havia lá. E, depois, ele propôs, por via das dúvidas, que ambos fizessem as pazes. Então ela disse: “Mas nem eu consigo estar de bem com você quando vejo a pedra fendida, nem você comigo quando olha para o túmulo de seu filho”.

A fábula mostra que as grandes inimizades não têm fácil reconciliação.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 288

Esopo 360

A vespa e a cobra

Uma vespa pousou na cabeça de uma cobra e não parava de atormentá-la, golpeando-a com o ferrão. E ela, com muita dor e sem ter como vingar-se do inimigo, enfiou a cabeça embaixo da roda de uma carroça e, assim, morreu, junto com a vespa.

Para aqueles que suportam morrer em companhia de seus inimigos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 516

Esopo 374

Zeus e a cobra

Como Zeus estava celebrando suas núpcias, todos os animais subiram com presentes à sua morada. Então, uma cobra apanhou uma rosa na boca e subiu rastejando. Ao vê-la, porém, Zeus disse: “Mesmo dos pés de todos os outros eu aceito presentes, mas de tua boca eu não pego nada!”.

A fábula mostra que as cortesias dos malvados são temíveis.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 533