Bábrio 1.77

O corvo e a raposa

Estava um corvo pousado com um queijo preso no bico,

quando uma raposa, cobiçando o queijo, matreira

logrou o pássaro com um palavreado assim:

“Ó corvo, tuas asas são belas, teu olhar é penetrante

e teu pescoço é digno de ser visto. Ostentas um peito de águia! 5

Com tuas garras, sobre todos os animais prevaleces.

Tu, um pássaro de tal porte, és mudo e não crocitas!”

O corvo, tocado no coração pelo encômio,

soltou da boca o queijo e ficou a emitir gritos.

E a espertalhona agarrou o queijo e com língua ferina 10

disse: “Tu não eras mudo! Ao contrário, tens voz!

Tens, ó corvo, tudo, tudo; só te falta juízo!”

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Fedro 1.13

A raposa e o corvo

Quem se alegra em ser louvado com palavras enganosas

normalmente paga a pena com vergonhosa penitência.

Como um corvo, pousado no alto de uma árvore,

quisesse comer um queijo, roubado de uma janela,

uma raposa o viu e em seguida começou a falar assim: 5

“Ó que brilho é o de tuas penas, corvo!

Que grande formosura trazes no corpo e no rosto!

Se tivesses voz, nenhuma ave seria superior a ti.”

E de tolo aquele, querendo ostentar a voz,

deixou cair da boca o queijo, que rapidamente 10

a dolosa raposa arrebatou com seus ávidos dentes.

Só então é que a iludida estupidez do corvo gemeu.

{Com este fato é provado o quanto vale o talento;

A sabedoria sempre prevalece sobre a coragem.}

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Esopo 50

O burro, o corvo e o lobo

Um burro com uma ferida no lombo pastava num prado, quando um corvo pousou sobre ele e ficou dando bicadas na ferida. Enquanto o burro zurrava e saltava de dor, o burriqueiro, parado a uma certa distância, dava risada. Nisso, passava por ali um lobo, que, ao ver a cena, disse para si: “Pobres de nós! Se dermos uma única espiada, somos perseguidos, ao passo que o corvo ganha sorrisos”.

A fábula mostra conhecidos mesmo que os homens malfeitores são à distância.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 94

Esopo 110

O corvo doente

Um corvo doente pediu à sua mãe: “Mãe, não fique se lamentando, reze aos deuses!”. E ela respondeu: “Filho, que deus terá piedade de você? De qual deles você não roubou carne?”.

A fábula mostra que os que têm, na vida, inúmeros inimigos numa urgência não encontrarão nenhum amigo.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 170

Esopo 111

O corvo e a cobra

Ao avistar uma cobra dormindo num lugar ensolarado, um corvo faminto desceu voando e arrebatou-a, mas ela se voltou e lhe deu uma picada. Então ele disse, prestes a morrer: “Pobre de mim! Encontrei esse achado e, por causa dele, estou perdendo a vida!”.

Esta fábula poderia ser contada a propósito de um homem que, para achar um tesouro, pôs em perigo a própria vida.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 171

Esopo 112

O corvo e a raposa

Um corvo surripiou um pedaço de carne e foi pousar numa árvore, mas uma raposa o avistou e quis tomar-lhe a carne. Parou, então, diante da árvore e se pôs a fazer elogios à sua beleza e ao seu porte vistoso, dizendo também que ele era perfeito para ser o rei dos pássaros, e que isso certamente aconteceria se ele tivesse voz. E o corvo, querendo mostrar-lhe que tinha voz também, soltou a carne e ficou grasnando bem alto. A raposa, então, agarrou correndo a carne e disse-lhe: “Ei, corvo, se você também tivesse inteligência, nada lhe faltaria para ser rei de todos nós”.

Para um homem tolo a fábula é oportuna.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 172

Esopo 113

O corvo e Hermes

[A fábula mostra] Que os que foram ingratos com os benfeitores, quando caírem em dificuldades, não terão protetores.

Um corvo, preso numa armadilha, suplicou proteção a Apolo, prometendo queimar incenso em sua honra. Mas, quando se viu livre do perigo, esqueceu a promessa. Todavia, ao ser novamente apanhado em outra armadilha, deixou de lado Apolo e prometeu sacrifícios a Hermes. Este, então, lhe disse: “Calhorda! Como vou acreditar em você, que renegou e lesou seu primeiro senhor?”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 173

Esopo 114

O corvo e o cisne

Fábula do corvo, a qual exorta a subordinar-se à natureza.

Um corvo viu um cisne e sentiu inveja de sua cor. Supondo que ele era daquela cor devido às águas em que se banhava, abandonou os altares onde encontrava alimento e passou a viver em lagos e rios. Com o banho, o corvo não mudou de cor, mas, privando-se de alimento, acabou morrendo.

O regime de vida não sabe mudar a natureza.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 174

Esopo 135

O gaio e os corvos

Um gaio que se distinguia dos demais pelo tamanho menosprezou os de sua raça e foi ter com os corvos, julgando que o certo era conviver com eles. Mas eles estranharam seu aspecto e sua voz e o enxotaram a bicadas. E ele, rejeitado, voltou para os gaios. Estes, porém, indignados com aquela insolência, não lhe deram acolhida. Assim, aconteceu que o gaio acabou excluído das duas comunidades.

Assim, também, os homens que abandonam a pátria para dar preferência a terras estrangeiras aí não gozam de estima, por serem estrangeiros, e são repudiados pelos compatriotas, por tê-los menosprezado.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 205

Esopo 152

A gralha e o corvo

Uma gralha sentia inveja de um corvo porque ele, por meio de augúrios, fornecia presságios aos humanos e anunciava o futuro, e, por isso, eles o tomavam como testemunha. Então a gralha, no desejo de alcançar os mesmos privilégios, assim que avistou alguns viandantes se aproximando, plantou-se numa árvore e lá ficou grasnando bem alto. Impressionados com aquela voz, os viandantes se voltaram para elas, mas um deles tomou a palavra e disse: “Ora, amigos, vamos embora! É só uma gralha! E seus gritos não fornecem presságios!”.

Assim, também, os homens que competem com os mais fortes, além de não se igualarem a eles, ainda se expõem a chacota.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 229