Fedro 4.2

O poeta

A ti parece que estamos brincando: e, enquanto nada temos

de mais importante, nos divertimos com o leve cálamo.

Mas observa estas bagatelas com atenção;

quanta utilidade encontrarás embaixo delas!

Nem sempre as coisas são o que parecem: engana 5

a muitos a primeira vista, é rara a mente que compreende

o que o cuidado do poeta ocultou no cantinho mais recôndito.

Para que não se pense que eu tenha dito isso gratuitamente,

ajuntarei uma fabulazinha sobre a doninha e os ratos.

Uma doninha, enfraquecida pelos anos e pela velhice, 10

como não fosse capaz de alcançar os velozes ratos,

envolveu-se em farinha e se lançou negligentemente

num local escuro. Um rato, achando que era comida,

saltou em cima e, apanhado, encontrou a morte;

um outro pereceu do mesmo modo e, depois, um terceiro. 15

Seguindo-se outros, veio também um rato matreiro

que muitas vezes tinha escapado de redes e ratoeiras;

e, distinguindo de longe a cilada do astuto inimigo, diz:

“Que tenhas saúde, como és farinha que estás aí deitada!”

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 4.6

A luta dos ratos e das doninhas

Como os ratos, vencidos pelo exército das doninhas,

(cuja história é pintada nas tabernas)

fugissem e se agitassem temerosos ao redor das estreitas tocas,

recolhidos com dificuldade, escaparam, contudo, da morte:

os seus chefes, porém, com chifres atados 5

em suas cabeças, para serem no combate

visível sinal que os soldados seguissem,

enroscaram-se nas portas e foram apanhados pelos inimigos;

o vencedor, depois de sacrificá-los com seus ávidos dentes

enterrou-os na gruta infernal de seu espaçoso ventre. 10

Qualquer que seja o povo que um acontecimento triste oprime,

a grandeza dos poderosos corre perigo;

o povo miúdo se esconde num fácil abrigo.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.22

A doninha e o homem

Uma doninha, apanhada por um homem, querendo escapar

da morte iminente, diz: “Por favor, me poupa,

pois sou eu que te limpo a casa dos nocivos ratos.”

Respondeu aquele: “Se fizesses isso por minha causa,

seria digno de gratidão e eu te daria o perdão que suplicas. 5

Agora, visto que trabalhas para desfrutares dos restos

que os ratos vão roer e, ao mesmo tempo, devorares os próprios ratos,

não queiras me convencer a aceitar um favor inexistente.”

E, tendo assim falado, matou a malvada.

Devem reconhecer que isto foi dito para si aqueles 10

cuja utilidade particular serve a eles próprios

e se gabam perante os incautos um vão merecimento.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Esopo 104

A cobra, a doninha e os ratos

Uma cobra e uma doninha estavam numa casa brigando. E os ratos de lá, que eram sempre devorados pelas duas, quando as viram brigando saíram para passear. Mas, assim que elas viram os ratos, suspenderam a briga e foram atrás deles.

Assim, também, no que concerne às cidades, aqueles que se intrometem nas querelas dos demagogos não percebem que se tornam um incômodo para os dois lados.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 161

Esopo 120

A doninha e a lima

Uma doninha entrou na oficina de um ferreiro e se pôs a lamber uma lima que havia por lá. Aconteceu que sua língua foi se esfolando e dela passou a brotar muito sangue. A doninha, porém, se alegrou, presumindo que estivesse extraindo alguma coisa do ferro, até que, por fim, ficou sem língua.

A fábula é para aqueles que se prejudicam mutuamente em rixas.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 183

Esopo 121

A doninha e Afrodite

Uma doninha se apaixonou por um rapazinho muito formoso e foi pedir a Afrodite que a transformasse em mulher. Comovida com seu sofrimento, a deusa transformou-a em bela moça. E, de fato, o rapazinho, tão logo a avistou, foi tomado de paixão e a levou para casa como sua amante. Estavam os dois em repouso no leito nupcial, quando Afrodite, desejando saber se, tendo modificado o corpo da doninha, tinha alterado também seu caráter, lançou um rato no meio do quarto. E ela, esquecida de sua atual condição, ergueu-se do leito e começou a perseguir o rato, na ânsia de devorá-lo. Então a deusa perdeu a paciência e fê-la voltar à sua antiga natureza.

Assim, também, os homens perversos por natureza, ainda que sua constituição física se altere, não mudam de caráter.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 184

Esopo 261

O morcego e as doninhas

Um morcego caiu no chão e foi apanhado por uma doninha. Quando viu que estava para ser morto, pediu por favor que ela o poupasse. Mas, como ela respondeu que não podia soltá-lo, inimiga que era por natureza de todos os pássaros, ele disse que não era passarinho, e sim rato. Dessa maneira, safou-se. Tempos depois ele tornou a cair e, ao ser apanhado por outra doninha, pediu que o soltasse. E como ela lhe respondeu que tinha bronca de todos os ratos, ele disse que não era rato, e sim morcego. E escapou de novo. E foi assim que, trocando de nome, ele se salvou duas vezes.

Pois é. Portanto, também nós não devemos persistir sempre nas mesmas atitudes, considerando que aqueles que se adaptam às situações escapam muitas vezes de sérios perigos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 372

Esopo 299

O periquito e a doninha

Um homem comprou um periquito e deixou-o solto a brincar pela casa. E ele, que era domesticado, foi num salto pousar sobre a lareira e lá ficou, alegre, a papagaiar. Então uma doninha o viu e indagou quem era ele e de onde viera. “O dono me comprou há pouco”, respondeu ele. “Ora, ora, seu bicho atrevido”, disse ela, “você, que é novo aqui, ousa estrilar desse jeito, enquanto eu, que nasci nesta casa, não tenho liberdade; ao contrário, se alguma vez me atrevo a fazer isso, os donos me enxotam, enfezados. E você ousa sem temor algum expressar-se livremente!” E o periquito retrucou: “Sai prá lá, dona da casa! É que a minha voz não causa aos donos tanto incômodo como a sua!”.

Para homem maldoso, que se põe a jogar sempre a culpa nos outros.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 422

Esopo 336

Os ratos e as doninhas

Os ratos e as doninhas viviam em guerra, mas sempre eles é que saíam derrotados. Os ratos fizeram uma reunião e concluíram que estavam perdendo porque não tinham chefes. Então, selecionaram alguns candidatos e, levantando a mão, elegeram seus generais. E estes, no intuito de se destacarem dos outros, arrumaram chifres e passaram a usá-los. Quando se instalou a batalha, o que aconteceu foi que os ratos iam sendo derrotados. Mas, enquanto alguns se refugiavam em buracos onde entravam com facilidade, os generais, impedidos de entrar por causa dos chifres, foram apanhados e devorados.

Assim, para muitos, a vanglória torna-se causa de males.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 475