Fedro 2.8

O cervo junto aos bois

Um cervo, enxotado de seus esconderijos no bosque,

para fugir da iminente morte por caçadores,

dirigiu-se em seu cego medo a uma chácara próxima

e se refugiou em um oportuno curral.

Aí um boi diz ao que se escondia: “O que quiseste para ti, 5

infeliz, tu, que correste espontaneamente para a morte

e confiaste tua vida ao teto dos homens?”

Mas ele suplicante: “Vós”, diz, “poupai-me apenas;

dada a ocasião, sairei novamente”.

A vez da noite toma o lugar do dia. 10

O vaqueiro traz a forragem, e nada vê.

Vão e vêm, em seguida, todos os camponeses,

ninguém nota; passa também o caseiro,

nem ele percebe coisa alguma. Então o animal, alegrando-se,

começou a agradecer os bois silenciosos, 15

por terem prestado hospitalidade num momento adverso.

Respondeu um: “Na verdade te desejamos salvo,

mas se vier aquele que tem cem olhos,

tua vida estará em grande perigo”.

Nisso, o próprio dono volta do jantar 20

e, como tinha visto há pouco que os bois estavam emagrecendo,

aproxima-se do estábulo: “Por que há pouca forragem,

Faltam palhas? Que trabalhão é tirar

essas teias de aranha?” Enquanto examina cada coisa,

vê também os altos chifres do cervo; 25

convocada a criadagem, ordena que seja morto

e leva a presa. Esta fábula quer dizer

que o dono vê muito mais em seus negócios.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Esopo 34

O burro festeiro e o dono

Uma pessoa tinha um cão maltês e um burro, mas vivia sempre mimando o cão. Desse modo, se ia jantar fora, trazia algum bocado para lhe atirar quando o cão vinha a seu encontro abanando o rabo. Certa vez o burro, enciumado, correu ao encontro do dono e, ao saltitar, deu-lhe um coice. Então o dono perdeu a paciência e ordenou que, debaixo de pancadas, ele fosse levado para ser preso na estrebaria.

A fábula mostra que nem todos nasceram para tudo.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 75

Esopo 65

Os cães

Um homem que era dono de dois cães ensinou um a caçar e fez do outro seu cão de guarda. E, então, cada vez que o cão de caça saía a caçar e trazia alguma presa, o dono atirava um pedaço dela também para o outro. Indignado, o cão caçador passou a censurar o cão de guarda, pois, enquanto ele próprio vivia saindo e se estafando, o outro nada fazia e se deliciava com os frutos do esforço alheio. Então o cão de guarda lhe retrucou: “Mas não faça críticas a mim, e sim ao meu dono! Foi ele que me ensinou não a trabalhar, mas a desfrutar do trabalho alheio”.

Assim, também, as crianças preguiçosas não merecem censura, quando os pais as educam dessa maneira.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 119

Esopo 95

O cavalo e o soldado

Era um tempo de guerra e um soldado alimentava seu cavalo com cevada, por julgá-lo um colaborador nas emergências. No entanto, quando a guerra acabou, o cavalo passou a cuidar de tarefas servis e de pesados fardos, e a ser alimentado apenas com palha. Mas, quando se ouviu de novo falar em guerra e a trombeta começou a soar, o dono pôs arreios no cavalo e montou nele com seus armamentos. Ele, porém, arriava a todo momento, sem forças para nada. Foi então que disse ao dono: “Agora trate de partir com os soldados da infantaria, os hoplitas, pois você me transformou, de cavalo que eu era, em burro. E como quer reaver, de um burro, um cavalo?”.

[A fábula mostra] Que, em tempos de segurança e tranquilidade, não se deve perder de vista os tempos de infortúnios.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 151

Esopo 100

O cisne e o dono

Dizem que os cisnes cantam na hora de morrer. Foi então que uma pessoa encontrou casualmente um cisne à venda e comprou-o, pois tinha ouvido dizer que era uma ave muito melodiosa. Certa vez, quando recepcionava convivas, aproximou-se do cisne e pediu-lhe que cantasse enquanto eles bebiam. Nessa ocasião, porém, o cisne ficou em silêncio e só foi entoar seus prantos muito depois, quando percebeu que ia morrer. Ao ouvi-lo, o dono disse: “Mas se não há meio de um cisne cantar a não ser que esteja para morrer, então eu é que fui bobo na hora em que lhe fiz um pedido, em vez de ter matado você”.

Assim, alguns homens fazem por mal o que por bem não querem aceitar.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 157

Esopo 101

O cisne levado em lugar do ganso

Fábula do ganso e do cisne, a qual estimula os jovens a refletir.

Um homem abastado resolveu criar um ganso junto com um cisne, visando a fins diferentes: havia comprado um para cantar e o outro para levar à mesa. Mas já era noite quando o ganso precisava morrer pelos propósitos para os quais estava sendo criado, e o momento não ajudava o dono a distinguir um do outro. O cisne é levado em lugar do ganso, mas com um canto ele revela sua natureza e escapa da morte.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 158