Esopo 174

O homem que fazia promessas impossíveis

Um homem pobre e doente estava passando mal e, desenganado pelos médicos, rezava aos deuses, prometendo-lhes que imolaria cem bois e consagraria oferendas caso ficasse bom. Então sua esposa, que nesse momento estava junto dele, perguntou: “E como é que você vai pagar essa promessa?”. Ele respondeu: “Pois você acha que eu vou me recuperar, para os deuses, depois, me cobrarem essa dívida?”.

A fábula mostra que certos homens assumem com facilidade compromissos que não planejam cumprir de fato.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 258

Esopo 175

O homem que queria comprar um burro

Um homem pegou para testar um burro que ele ia adquirir. Levou-o, então, para a cocheira e o instalou junto dos burros que já possuía. Mas o burro se apartou dos outros e foi plantar-se ao lado do mais preguiçoso e comilão. E, como ele não fazia nada, o homem o laçou e levou embora, de volta para o dono. Quando este perguntou se ele tinha feito um teste adequado, o outro respondeu: “Mas eu não preciso de teste nenhum! Pois sei que ele é tal e qual o companheiro que, dentre todos, escolheu”.

A fábula mostra que uma pessoa é considerada igual aos companheiros com os quais têm afinidades.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 259

Esopo 176

O homem que quebrou uma estátua

Um homem muito pobre tinha um deus de madeira, a quem implorava que lhe concedesse benefícios. E, mesmo agindo assim, na realidade estava vivendo em penúria cada vez maior. Um dia ele se chateou, agarrou o deus pela perna e bateu-o contra a parede. Imediatamente a cabeça rachou e dela jorraram moedas de ouro. Enquanto as recolhia, o homem berrou: “Pelo que vejo, você é um farsante e ingrato. Não me prestava nenhum auxílio enquanto eu o honrava, mas quando bati em você concedeu-me em troca inúmeros bens!”.

A fábula mostra que você não conseguirá nenhum benefício concedendo honras a um homem perverso, mas, batendo nele, alcançará maiores vantagens.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 260

Esopo 177

O homem trapaceiro

Um homem pobre e doente, que passava mal, prometeu aos deuses sacrificar cem bois se eles o salvassem. E os deuses, para testá-lo, providenciaram-lhe uma rápida cura. Por fim, ele se levantou e, como não tivesse bois de verdade, moldou em cera cem bois e queimou-os sobre um altar, dizendo: “Aceitem minha promessa, ó divindades!”. E os deuses, desejando revidar a trapaça, enviaram-lhe um sonho que o exortava a ir até a praia, onde lá haveria de encontrar mil dracmas. Exultante, ele foi correndo para lá e caiu nas mãos de piratas, que o levaram embora. Vendido por eles, acabou encontrando as mil dracmas.

A fábula é oportuna para homem mentiroso.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 261

Esopo 178

O homem, a égua e o potro

Um homem seguia montado numa égua que estava prenhe e, durante o percurso, ela pariu um potro. O potro se pôs a caminhar bem atrás da mãe, mas logo sentiu que ia desmaiar e disse para o cavaleiro montado em sua mãe: “Olha, você está vendo que sou muito frágil e não tenho forças para seguir viagem. Mas fique sabendo que, se me abandonar aqui, morrerei na hora; já se você me recolher daqui e me levar para me criar em sua casa, no futuro estarei crescido e deixarei você cavalgar em mim”.

Esta fábula mostra que devemos fazer o bem para aqueles de quem esperamos receber a retribuição.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 262

Esopo 179

Os homens que discutiam a respeito dos deuses

Dois homens discutiam para saber qual dos deuses era superior, Teseu ou Héracles. Mas os deuses, irritados com eles, se vingaram individualmente sobre suas respectivas aldeias.

[A fábula mostra] Que a discórdia dos subordinados instiga os senhores a se irritar contra os súditos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 263

Esopo 182

As idades do homem

Quando Zeus fez o homem, deu a ele uma vida breve. Mas o homem usou seu conhecimento e, quando estava próximo o inverno, fabricou para si uma casa e lá ficou vivendo. E, certa vez, quando fez um frio rigoroso e Zeus fez chover, o cavalo não pôde resistir e foi correndo à casa do homem pedir-lhe abrigo. O homem disse que só o atenderia se ele lhe cedesse uma parte de seus anos de vida. O cavalo, então, cedeu-a de bom grado. Não muito tempo depois, apareceu também o boi, pois nem ele estava podendo suportar a borrasca. Do mesmo modo, o homem disse que o acolheria se ele primeiro lhe entregasse um certo número de seus anos de vida. O boi, então, deu uma parte e foi acolhido. Por último chegou o cão, morrendo de frio, e, tendo partilhado também uma porção de seu tempo de vida, conseguiu abrigo. O resultado disso é que os homens, quando estão no tempo concedido por Zeus, são puros e bons, mas quando vivem os anos do cavalo são fanfarrões e empertigados; quando chegam aos anos do boi, tornam-se dominadores; e quando completam o tempo do cão ficam irascíveis e resmungões.

Uma pessoa poderia usar esta fábula para um velho irascível e intratável.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 271-272

Esopo 188

O Juramento

Um homem, que recebera de um amigo um depó- sito em confiança, maquinou um plano para fraudá-lo. E, quando o amigo ia chamá-lo para prestar juramento, ele, precavendo-se, se pôs a caminho do campo. Já nas portas da cidade, viu saindo um homem manco e lhe perguntou quem era e para onde ia. Tendo ele respondido que era o Juramento em pessoa e que ia ao encontro dos ímpios, o depositário lhe perguntou, em seguida, de quanto em quanto tempo ele costumava vir às cidades. “A cada quarenta anos, às vezes trinta”, respondeu ele. E o outro, sem hesitar, jurou no dia seguinte que não havia recebido o tal depósito. Mas, depois, ao deparar com o Juramento e ser levado por ele à beira de um abismo, começou a recriminá-lo por ele ter dito que estaria de volta depois de trinta anos, mas na realidade não lhe dera um único dia de sossego. Então, o Juramento lhe respondeu: “Mas esteja bem certo de que, quando alguém está para molestar-me, eu costumo voltar no mesmo dia”.

A fábula mostra que a vingança divina chega sem dia marcado.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 280

Esopo 298

A perdiz e o homem

Um homem caçou uma perdiz e já estava para puxar seu pescoço quando ela se pôs a dizer, suplicando: “Deixe-me viver e, em compensação, eu lhe caçarei muitas perdizes”. Ele respondeu: “Mais um motivo para eu puxar seu pescoço, pois você está querendo fazer uma emboscada para seus amigos e companheiros”.

[A fábula mostra] Que quem faz tramoias contra os amigos acaba caindo nas malhas dos perigos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 421

Esopo 299

O periquito e a doninha

Um homem comprou um periquito e deixou-o solto a brincar pela casa. E ele, que era domesticado, foi num salto pousar sobre a lareira e lá ficou, alegre, a papagaiar. Então uma doninha o viu e indagou quem era ele e de onde viera. “O dono me comprou há pouco”, respondeu ele. “Ora, ora, seu bicho atrevido”, disse ela, “você, que é novo aqui, ousa estrilar desse jeito, enquanto eu, que nasci nesta casa, não tenho liberdade; ao contrário, se alguma vez me atrevo a fazer isso, os donos me enxotam, enfezados. E você ousa sem temor algum expressar-se livremente!” E o periquito retrucou: “Sai prá lá, dona da casa! É que a minha voz não causa aos donos tanto incômodo como a sua!”.

Para homem maldoso, que se põe a jogar sempre a culpa nos outros.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 422