Fedro 5.8

O tempo

Em alada corrida, equilibrando-se numa navalha,

calvo, com a fronte cabeluda, com o corpo nu,

o qual, se o apanhares, que o agarres, uma vez escapado

nem o próprio Júpiter pode segurá-lo,

representa a breve oportunidade das situações. 5

Para que a preguiçosa demora não impedisse os projetos,

os antigos criaram essa imagem do Tempo.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 4.10

Acerca dos defeitos dos homens

Júpiter colocou em nós duas sacolas:

a repleta com nossos próprios defeitos pôs nas costas,

a cheia dos defeitos alheios suspendeu diante do peito.

Por esse motivo não conseguimos ver os nossos males;

assim que os outros cometem faltas, somos críticos. 5

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 4.11

O ladrão e a lucerna

Um ladrão acendeu a lucerna no altar de Júpiter

e saqueou o próprio deus com sua própria luz.

Quando ele estava indo embora, com a carga do  seu sacrilégio,

a sagrada Religião enviou de repente sua voz:

“Ainda que essas oferendas fossem de homens perversos 5

e odiosas para mim, a ponto de eu não me ofender terem sido roubadas,

mesmo assim, celerado, pagarás tua culpa com a vida,

um dia, quando chegar o dia designado para a tua pena.

Mas para que não ilumine o crime o nosso fogo,

por meio do qual a piedade honra os deuses veneráveis, 10

proíbo que haja tal comércio de luz”.

Por isso hoje não é lícito a lucerna acender-se

da chama dos deuses nem da lucerna, o fogo sagrado.

Quantas coisas úteis este enredo contém

ninguém mais do que quem o descobriu explicará. 15

Significa, primeiramente, que muitas vezes os que tu alimentas

serão identificados principalmente como teus adversários;

em segundo lugar, mostra que os crimes não são punidos 19

pela ira dos deuses, mas pelo tempo designado dos fados; 18

por último, veda que o bom compartilhe 20

com o maléfico o uso de alguma coisa.

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FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 4.17

Sobre as cabras barbudas

Como as cabras tivessem obtido de Júpiter barba,

os bodes, entristecidos, começaram a ficar indignados

porque as fêmeas tinham igualado sua dignidade.

“Deixai”, diz [Júpiter] “que elas desfrutem de uma glória vã

e usurpem o ornato de vossa função, 5

contanto que não sejam iguais às vossas forças”.

Este enredo aconselha a que suportes que sejam semelhantes

a ti no aspecto exterior os que são diferentes em valor.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 4.19

Os cães enviaram legados a Júpiter

Certa vez os cães enviaram legados a Júpiter

para pedir tempos melhores para sua vida,

que os livrasse das afrontas dos homens,

porque lhes davam pão misturado com farelos

e saciavam sua fome principalmente com repugnante esterco. 5

Os legados partiram mas não a passos rápidos;

enquanto procuram com seus faros comida no estrume,

citados, não respondem. A custo finalmente

Mercúrio os encontra e os arrasta perturbados.

Mas então, assim que viram o rosto do grande Júpiter, 10

cagaram por todo o palácio, morrendo de medo.

O grande Júpiter proíbe que eles sejam dispensados; 13

mas vão para fora, impelidos pelos bastões 12

                                (…)

admirados que seus legados não voltavam;

imaginando que algo vil tinha sido cometido pelos seus, 15

após algum tempo ordenam que outros sejam inscritos.

O rumor se espalha sobre os legados anteriores;

temendo que aconteça novamente algo semelhante,

enchem o ânus dos cães de perfume, mas de muito mesmo!

Dão as instruções e pedem que sejam enviados imediatamente.20

Eles saem. Solicitando, logo conseguem o acesso.

Toma assento o máximo genitor dos deuses

e agita o raio; todas as coisas começam a tremer.

Os cães confusos, porque o estrondo tinha sido repentino,

de repente cagam perfume misturado com merda. 25

Os deuses todos gritam que a injúria devia ser punida.

Antes da pena, Júpiter falou assim:

“Não é próprio de um rei não dispensar os legados,

nem é difícil impor uma pena para a culpa deles.

Mas por justiça levareis esta recompensa: 30

não proíbo sejam dispensados, desde que flagelados de fome,

para que possam conter a sua barriga.

E aqueles que vos enviaram tão incontinentes

nunca ficarão sem as afrontas dos homens”.

[Agora os pósteros estão esperando os legados, 35

e quando um vê chegar um novo cão cheira seu cu.]

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 4.21

A raposa e víbora

Uma raposa, ao cavar o seu covil, enquanto tirava a terra

e fazia muitas galerias muito profundas,

chegou ao recôndito antro de uma víbora

que guardava tesouros ocultos.

Assim que a avistou: “Primeiro peço-te que concedas perdão 5

para a minha imprudência; depois, já que vês perfeitamente

o quanto o ouro não é conveniente para a minha vida,

que me respondas com benevolência: que fruto obténs

deste trabalho ou quão grande é a recompensa

para que te prives do sono e passes a vida nas trevas?” 10

“Nenhuma” diz aquela, “mas isto me foi incumbido

pelo supremo Júpiter”. “Então nem tiras para ti

nem doas nada a ninguém?” “Assim agrada aos Fados”.

“Não quero que fiques brava, se eu disser francamente:

nasceu com os deuses irados quem é semelhante a ti”. 15

Tu, que hás de partir para onde partiram os antepassados,

por que, com a mente cega, torturas a tua vida desgraçada?

Digo a ti, avarento, alegria de teu herdeiro, que enganas

os deuses com incenso e a ti próprio com comida,

que ouves triste o som musical da cítara, 20

a quem aflige a alegria das flautas,

a quem os preços dos alimentos arrancam um gemido,

que, enquanto amontoas centavos ao teu patrimônio,

aborreces o céu com sórdido perjúrio,

que aparas toda despesa do funeral 25

para que a Libitina não tenha algum lucro com o que é teu.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 3.17

As árvores sob a tutela dos deuses

Outrora os deuses escolheram as árvores

que queriam que estivessem sob sua tutela. O carvalho

agradou a Júpiter, o mirto a Vênus, a Febo o loureiro,

o pinheiro a Cibele, o alto choupo a Hércules.

Minerva, admirando-se, perguntou por que adotavam 5

as estéreis. Júpiter disse o motivo:

“Para que não pareçamos vender nossa honra pelo fruto”.

“Mas, por hércules, alguém contará o que quiser,

a mim a oliveira me é mais agradável por causa de seu fruto”.

Então o pai dos deuses e criador dos homens falou assim: 10

” Ó filha, és com razão chamada de sábia por todos.

Se o que fazemos não é útil, tola é a glória”.

A fabulazinha aconselha a nada fazer que não tenha proveito.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.2

As rãs pediram um rei

Quando Atenas florescia sob leis justas,

uma desenfreada liberdade tomou conta da cidade

e a libertinagem soltou o antigo freio.

Aí, tendo os partidos das facções conspirado,

o tirano Pisístrato ocupa a cidadela. 5

Como os atenienses chorassem a triste servidão,

(não porque ele fosse cruel, mas porque toda carga é pesada

para os não acostumados) e começassem a queixar-se,

Esopo contou então a seguinte fábula:

As rãs, que vagavam livres nos pântanos, 10

com grande clamor pediram a Júpiter um rei,

que reprimisse com energia os costumes dissolutos.

O pai dos deuses riu e lhes deu

um pequeno pedaço de pau, que, lançado repentinamente,

aterrorizou, com o movimento e barulho da água, a medrosa espécie. 15

Este permaneceu imerso no lodo por muito tempo, até que,

casualmente, uma pôs silenciosamente a cabeça para fora do charco

e, após examinar o rei, chama todas as outras.

Aquelas, perdido o medo, chegam nadando em desafio,

e a turba atrevida salta sobre o pedaço de pau. 20

Depois de ultrajá-lo com todo tipo de afronta,

enviaram rãs que pedissem um outro rei a Júpiter,

visto ser inútil aquele que lhes havia sido dado.

Então ele lhes enviou uma hidra, que, com seu dente cruel,

começou a dilacerá-las uma a uma. Inertes, 25

tentam em vão fugir da morte, o medo lhes apaga a voz.

Então furtivamente dão a Mercúrio recados para Júpiter,

para que ele socorresse as aflitas. Então o deus, em resposta,

disse: “ Porque não quisestes suportar o vosso bem-estar,

suportai a desgraça.” “Vós também, ó cidadãos”, diz Esopo, 30

aguentai este mal, para que não venha um maior”.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.6

As rãs para o sol

As concorridas núpcias de um ladrão, vizinho seu,

viu Esopo e, de imediato, começou a narrar:

Como um dia o Sol quisesse casar-se,

as rãs ergueram para os astros uma gritaria.

Movido pelo alvoroço, quis Júpiter saber 5

o motivo da queixa. Então, uma habitante do charco

disse: “Agora um só já seca todos os lagos

e nos obriga a morrer desgraçadas numa árida morada.

O que acontecerá então, se ele gerar filhos?”

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.