Fedro 5.2

Os viajantes e o ladrão

Como dois soldados tivessem deparado com um ladrão,

um fugiu, o outro, porém, ficou

e se defendeu com sua forte destra.

Derrubado o ladrão, o companheiro medroso acorre

e saca da espada; em seguida, jogando a capa para trás, 5

diz: “Deixa comigo; já cuidarei que ele sinta

com quem se meteu”. Aí, o que tinha lutado:

“Quisera eu que, ao menos, me tivesses ajudado com essas palavras;

eu teria sido mais resoluto, julgando-as verdadeiras.

Agora guarda tua espada e tua língua igualmente inúteis. 10

Que possas enganar os outros que te desconhecem;

eu, que constatei com quanto empenho foges,

sei o quanto não se deve acreditar em teu valor”.

Esta história deve ser aplicada àquele

que, numa situação favorável, é valente, numa incerta, é covarde. 15

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 4.11

O ladrão e a lucerna

Um ladrão acendeu a lucerna no altar de Júpiter

e saqueou o próprio deus com sua própria luz.

Quando ele estava indo embora, com a carga do  seu sacrilégio,

a sagrada Religião enviou de repente sua voz:

“Ainda que essas oferendas fossem de homens perversos 5

e odiosas para mim, a ponto de eu não me ofender terem sido roubadas,

mesmo assim, celerado, pagarás tua culpa com a vida,

um dia, quando chegar o dia designado para a tua pena.

Mas para que não ilumine o crime o nosso fogo,

por meio do qual a piedade honra os deuses veneráveis, 10

proíbo que haja tal comércio de luz”.

Por isso hoje não é lícito a lucerna acender-se

da chama dos deuses nem da lucerna, o fogo sagrado.

Quantas coisas úteis este enredo contém

ninguém mais do que quem o descobriu explicará. 15

Significa, primeiramente, que muitas vezes os que tu alimentas

serão identificados principalmente como teus adversários;

em segundo lugar, mostra que os crimes não são punidos 19

pela ira dos deuses, mas pelo tempo designado dos fados; 18

por último, veda que o bom compartilhe 20

com o maléfico o uso de alguma coisa.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 4.23

Sobre Simônides

O homem sábio sempre tem em si as riquezas.

Simônides, que escreveu notáveis poemas líricos,

para mais facilmente aliviar sua probreza,

começou a percorrer as ilustres cidades da Ásia,

cantando o louvor dos vencedores, em troca de pagamento. 5

Depois que tornou-se rico com esse tipo de ganho,

quis voltar para sua pátria por via marítima;

ele tinha nascido, segundo dizem, na ilha de Ceos.

Subiu em um navio que uma terrível tempestade

junto com sua velhice destruíram no meio do mar. 10

Uns recolhem suas bolsas, outros suas coisas valiosas,

sustentáculo de sua vida. Um certo sujeito muito curioso:

“Simônides, tu não pegas nada de teus bens?”

“Tudo o que é meu está comigo”, diz. Poucos se salvam a nado,

pois a maioria deles pereceu, afundados pelo peso da carga. 15

Chegam os ladrões, roubam o que cada um salvou,

deixam-nos pelados. Por acaso, perto de Clazômenas

havia uma antiga cidade, para onde os náufragos se dirigiram.

Aí, um certo sujeito dedicado ao estudo das letras,

que tinha lido muitas vezes os versos de Simônides 20

e era o maior admirador dele, mesmo quando ausente,

reconhecendo-o por sua fala, com o maior entusiasmo

acolheu-o em sua casa; proveu o homem de veste,

dinheiro, criados. Os demais levam seus quadros,

pedindo comida. Assim que por acaso os viu, 25

Simônides diz: “Eu disse que tudo o que é meu

está comigo; o que vós pegastes pereceu”.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 2.1

O novilho, o leão e o ladrão

Um leão estava de pé sobre um novilho abatido.

Um ladrão intervém, reclamando uma parte.

“Eu te daria” diz “se não tivesses o costume de pegar por ti mesmo”;

e rechaçou o malandro. Casualmente, um inofensivo

viajante chegou ao mesmo local 5

e, ao ver o feroz animal, retrocedeu.

E aquele lhe diz pacificamente: “Não há por que temer;

e pega sem medo a parte que lhe é devida

por tua modéstia.” Então, repartida a presa,

dirigiu-se à floresta, para deixar o caminho livre ao homem. 10

Um exemplo perfeitamente egrégio e louvável;

porém a ambição é rica e o recato, pobre.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 2.7

Dois burros e os ladrões

Iam dois burros carregados de fardos;

um levava cestos com dinheiro,

o outro, sacos estufados de muita cevada.

Enquanto aquele, rico por sua carga, se destaca pela cabeça erguida

e ostenta no pescoço um sonoro sininho; 5

o companheiro segue num passo silencioso e tranquilo.

De repente, surgem de emboscada ladrões

e em meio ao ataque, ferem com a espada o mulo,

roubam as moedas e desprezam a cevada sem valor.

Então, como o espoliado chorasse seus infortúnios, 10

diz o outro: “Na verdade, alegro-me de ter sido desprezado;

pois nada perdi, nem sofri ferimento algum.”

Por este argumento, a pobreza dos homens é segura,

as grandes riquezas estão sujeitas ao perigo.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.23

O cão fiel

O repentinamente generoso é agradável aos tolos,

porém arma insídias inúteis aos experimentados.

Como um ladrão noturno tivesse jogado um pão a um cachorro,

experimentando se ele podia ser seduzido pela comida atirada,

diz o cachorro: “Ora, queres calar minha língua 5

para eu não ladrar em defesa da casa de meu dono? Estás muito enganado.

Pois essa tua súbita bondade me ordena

a ficar atento, para que não obtenhas lucro por minha culpa.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Esopo 189

O ladrão e o albergueiro

Um ladrão alojou-se num albergue e lá ficou por alguns dias planejando fazer um roubo, mas não conseguiu realizar seu propósito. Certo dia, ao ver o albergueiro trajando uma roupa nova e vistosa (era dia de festa!) e sentado diante da porta do albergue sem ninguém por perto, o ladrão sentou-se ao lado dele e começou a conversar. E já haviam conversado um bom tanto quando o ladrão deu um bocejo e, em seguida, começou a uivar feito um lobo. Disse-lhe, então, o albergueiro: “Por que você está uivando assim?”. E o ladrão respondeu: “Vou lhe contar agora mesmo. Mas, primeiro, imploro que tome conta de meu manto, que vou deixar aqui. Eu não sei, meu senhor, de onde me vem esse bocejar. Não sei se é devido aos meus erros ou a alguma outra causa. Só sei que, depois que dou três bocejos, eu viro um lobo comedor de gente!”. Disse isso e bocejou pela segunda vez e, novamente, começou a uivar, igual à primeira vez. Ao ouvir isso, o albergueiro, que acreditara no ladrão, se apavorou e levantou-se, querendo fugir. Mas o ladrão o segurou pela túnica e lhe disse, implorando: “Espere, meu senhor, segure meu manto, para que eu não o destrua”. Enquanto implorava, abriu a boca e começou a bocejar pela terceira vez. O albergueiro, apavorado – e se ele o comesse?! –, deixou para trás sua própria roupa, entrou correndo no albergue e se refugiou lá dentro. Então, o ladrão se apoderou da roupa e foi embora.

Padecem assim os que acreditam no que não é verdade.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 283-284

Esopo 190

Os ladrões e o galo

Ladrões entraram numa casa e nada encontraram além de um galo. Pegaram-no e foram embora. Quando estava para ser imolado, o galo começou a implorar que o soltassem, dizendo que ele era útil para os homens, pois os despertava à noite para os afazeres. De pronto, os ladrões lhe disseram: “Mas é justamente por isso que vamos sacrificar você, pois, ao despertar os homens, você atrapalha nossa gatunagem!”.

A fábula mostra que o que mais incomoda os perversos é justamente o que beneficia as pessoas de bem.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 285