Esopo 216

O leão rei

Um certo leão tornou-se um rei que não era genioso, nem grosseiro, nem violento, mas dócil e justo, feito um ser humano. Em seu reinado houve um congresso de todos os animais, para ajustarem contas uns com os outros, o lobo com o cordeiro, a pantera com a camurça, o veado com o tigre e o cão com a lebre. Foi então que essa medrosa falou: “Rezei muito para ver este dia, em que os ínfimos apareçam aterradores para os violentos”.

[A fábula mostra] Que, quando existe justiça na cidade e todos pronunciam julgamentos justos, até a ralé vive despreocupadamente.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 316

Esopo 217

O leão trancafiado e a raposa

Ao avistar um leão trancafiado, uma raposa parou ao lado dele e lhe proferiu insultos terríveis. Mas o leão lhe disse: “Não é você que me ultraja, e sim este infortúnio que desabou sobre mim”.

Esta fábula mostra que muitas pessoas ilustres, quando vitimadas por reveses, são vilipendiadas pela ralé.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 317

Esopo 218

O leão trancafiado e o lavrador

Um leão entrou no estábulo de um lavrador. Este, no desejo de apanhá-lo, fechou a porta do cercado. Impossibilitado de sair, o leão dizimou primeiro os rebanhos e, depois, se voltou também para os bois. E o lavrador, temendo por sua própria vida, abriu a porta. Quando o leão já estava longe, sua mulher, ao vê-lo chorando, disse: “Mas é bem feito para você! Por que resolveu trancafiar esse animal, que até de longe você devia evitar?”.

Assim, aqueles que provocam os mais fortes amargam com razão os próprios descuidos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 318

Esopo 219

O leão velho e a raposa

Um leão já velho e sem condições de arranjar alimento com o próprio esforço, entendeu que devia fazê-lo por meio de algum recurso criativo. Então foi para uma caverna e lá se pôs deitado, fingindo que estava doente. E, assim, os animais que vinham lhe fazer uma visita, ele agarrava e devorava. Inúmeros animais haviam sido dizimados, quando uma raposa percebeu qual era a tática do leão e foi até lá. Ela, porém, se deteve do lado de fora da caverna e perguntou ao leão como ele estava. Ele disse: “Estou mal!”. E quis saber por que razão ela não entrava. A raposa respondeu: “Eu bem que teria entrado, se não estivesse vendo pegadas de muitos animais que entraram, mas de nenhum que saiu”.

Assim, os homens prudentes se safam dos perigos, porque se apoiam nos indícios e tomam precauções.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 319

Esopo 235

O lobo e o leão

Certa vez um lobo estava levando para sua toca um cordeiro roubado de um rebanho, quando um leão topou com ele e tomou-lhe a presa. Então o lobo estacou e lhe disse, de longe: “Você tomou desonestamente o que era meu!”. E o leão revidou, com um sorriso: “E por acaso você o recebera honestamente de algum amigo?”.

Gatunos e bandidos presunçosos, que trocam acusações quando se veem em alguma complicação, a fábula denuncia.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 338

Esopo 237

O lobo envaidecido e o leão

Um lobo vadiava por ermas paragens,

enquanto o Sol já ia descendo no ocaso.

E disse, ao ver sua própria sombra alongada:

“Temer o leão? Eu? Que tenho este tamanho?

Com tantos metros de medida, não serei

senhor de todas as feras reunidas?”.

Mas um leão forte agarra o lobo vaidoso

e já o abocanha. Grita o lobo arrependido:

“A pretensão é a causa de nossas desgraças”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 340

Esopo 256

O menino e o leão desenhado

[A fábula mostra] Que a pessoa deve suportar com coragem e sem subterfúgios aquilo que o destino lhe reserva, pois dele não pode escapar.

Um homem velho e medroso, pai de um único filho corajoso e afeiçoado à caça, viu, em sonho, esse filho ser morto por um leão. Temendo que fosse uma visão e que o sonho se mostrasse verídico, construiu um belíssimo aposento suspenso e lá manteve o filho protegido. E, para contentá-lo, também decorou o aposento com pinturas de animais de todas as espécies, entre os quais o desenho de um leão. O rapaz, contudo, quanto mais os contemplava, mais se enchia de dor. E, certa vez, parou diante do leão e disse: “Ô, fera terrível, por culpa sua e do sonho falso de meu pai estou encerrado numa prisão de mulher! O que devo fazer com você?”. Ao dizer isso, deu um murro contra a parede, no intuito de cegar o leão. Foi então que uma farpa de madeira penetrou sob sua unha e provocou uma dor aguda e uma inflamação, que virou um tumor. Disso resultou uma febre alta, que fez o rapaz deixar a vida bem rápido. Assim, de nada lhe adiantou o artifício de seu pai, uma vez que o leão, embora fosse um mero desenho, acabou matando-o.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 366-367

Esopo 265

A mosquito e o leão

Um mosquito chegou para um leão e disse: “Eu não tenho medo de você, nem você é mais forte do que eu. Senão, que força tem você? Só porque arranha com essas garras e morde com esses dentes? Isso até uma mulher faz quando briga com o marido! Eu, sim, sou muito, mas muito mais forte que você. E, se quiser, vamos ao combate!”. E o mosquito fez soar a trombeta e investiu contra ele, picando sua cara sem pelo, ao redor das narinas. E o leão, tentando afastá-lo, se feria com suas próprias garras, até que acabou se rendendo. Então o mosquito, tendo vencido o leão, fez soar a trombeta, entoou um epinício, um canto de vitória, e ficou voando. E, depois, chocou-se com uma teia de aranha. Então, ao ser devorado, lastimou que ele, que lutava com animais enormes, estava sendo morto por um reles bicho como a aranha.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 377

Esopo 277

O onagro e o burro

Ao ver um burro carregando um pesado fardo, um onagro se pôs a desdenhar de sua escravidão, dizendo: “Eu é que sou afortunado, pois vivo em liberdade, levo a vida sem fastios e tenho nas montanhas pastagem à minha disposição. Você, ao contrário, recebe alimento de outrem e vive continuamente submisso à escravidão e a pancadas”. Aconteceu, porém, que naquela mesma hora surgiu um leão, que nem chegou perto do burro, porque o burriqueiro o acompanhava; mas o onagro, que estava sozinho, ele atacou furiosamente e fez dele seu repasto.

Esta fábula mostra que os insubordinados e inflexíveis caem em desgraça de uma hora para outra, pois se deixam levar pela obstinação e prescindem de qualquer ajuda.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 395

Esopo 320

A raposa ajudante do leão

Fábula da raposa, que exorta a não sonhar muito alto.

Uma raposa era companheira de um leão na qualidade de sua ajudante: ela farejava as caças e ele caía sobre elas, agarrando-as. Decerto, cada um deles recebia uma porção, separada em conformidade com o mérito. Mas a raposa, tomada de inveja do leão por causa de suas porções maiores, achou melhor ir à caça em vez de farejar, e quando foi agarrar um animal de um rebanho viu-se como o principal alvo de perseguição dos caçadores.

É melhor servir em segurança do que exercer o mando em desamparo.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 451