Esopo 237

O lobo envaidecido e o leão

Um lobo vadiava por ermas paragens,

enquanto o Sol já ia descendo no ocaso.

E disse, ao ver sua própria sombra alongada:

“Temer o leão? Eu? Que tenho este tamanho?

Com tantos metros de medida, não serei

senhor de todas as feras reunidas?”.

Mas um leão forte agarra o lobo vaidoso

e já o abocanha. Grita o lobo arrependido:

“A pretensão é a causa de nossas desgraças”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 340

Esopo 238

O lobo general e o burro

[A fábula mostra] Que certas pessoas que parecem legislar segundo a justiça elas próprias não se enquadram nas leis que formulam e que adotam em seus julgamentos.

Assim que se tornou general da alcateia, um lobo ditou leis fixando que cada lobo deveria trazer para o grupo a presa que tivesse caçado e dar uma porção igual para cada um, a fim de evitar que os demais, privados de comida, devorassem uns aos outros. Então um burro se aproximou e, sacudindo a crina, disse: “Magnífica ideia saída da cabeça de um lobo! Mas como é que você deixou guardada em seu covil a caça de ontem? Vamos, trate de oferecê-la ao grupo, faça a partilha!”. E ele, denunciado, revogou as leis.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 341

Esopo 239

O lobo machucado e o cordeiro

Tendo sido mordido por cães, um lobo estava passando mal e permanecia estirado no chão, sem condições de ir à cata de comida para si. Mas, nisso, ele viu um cordeiro e pediu a ele que lhe arrumasse um pouco da água de um rio que corria perto dali. “Pois se você me der de beber, eu vou achar comida para mim”, disse ele. O cordeiro, porém, rebateu: “Mas se eu lhe servir a bebida, sou eu que vou virar sua comida!”.

Para homem malfeitor que prepara emboscada por meio de subterfúgios, a fábula é oportuna.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 342

Esopo 240

O lobo médico

Um burro estava pastando num prado e, ao ver um lobo avançando em sua direção, começou a fazer de conta que estava mancando. O lobo se aproximou e quis saber por que razão ele estava mancando. O burro respondeu que, ao atravessar uma sebe, havia pisado numa farpa, e aconselhou o lobo a, primeiro, extrair a farpa e só depois devorá-lo, para ele não se espetar enquanto o estivesse engolindo. O lobo se deixou convencer e ergueu a pata do burro, com a atenção toda voltada para seu casco. Nisso, o burro lhe pregou um coice na boca, que abalou seus dentes. E o lobo disse, entre dores: “Mas é bem-feito para mim! Se meu pai me ensinou o ofício de carniceiro, por que fui me ocupar da medicina?”.

Assim, também, os homens que se põem a fazer o que não lhes compete se desgraçam com razão.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 343

Esopo 241

Lobos e cães reconciliados

[A fábula mostra] Que aqueles que traem a pátria recebem esse tipo de pagamento.

Os lobos disseram aos cães: “Por que vocês, que são iguais a nós em tudo, não se põem de acordo conosco, feito irmãos? Não há entre nós nenhuma diferença, exceto quanto ao modo de pensar. E nós, os lobos, vivemos juntos em liberdade, enquanto vocês se curvam, subservientes, aos homens, tomando bordoadas, usando coleiras e vigiando os cordeiros. Mas, quando eles fazem as refeições, dão para vocês somente os ossos! Ora, se confiarem em nós e nos entregarem os rebanhos todos, teremos tudo em comum para comermos à farta”. Os cães deram crédito a tais propostas e os lobos, assim que entraram no aprisco, a primeira coisa que fizeram foi dizimar os cães.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 346

Esopo 242

Lobos e cães em guerra

Certa vez, quando os lobos e os cães estavam em pé de guerra, um cão grego, eleito o general dos caninos, tentava adiar o combate, ao passo que os lobos faziam ameaças terríveis. Então o cão disse aos lobos: “Sabem por que razão eu vou com calma? É porque preciso deliberar com cautela. Vocês pertencem a uma só raça e são todos de uma só cor, enquanto nós temos hábitos diversos e nos ufanamos de nossas terras. Além disso, nossa cor não é uma mesma e única; ao contrário, uns são pretos, outros, avermelhados, e outros, ainda, brancos e cinzentos. E como posso conduzi-los à guerra se eles são tão discordantes e desiguais em tudo?”.

[A fábula mostra] Que, quando há consenso na deliberação e no pensamento, todas as expedições alcançam vitória sobre as adversidades.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 347

Esopo 243

Os lobos e os cordeiros

Estavam uns lobos de olho num rebanho de cordeiros e, como não conseguiam agarrá-los por causa dos cães vigilantes, reconheceram que seria preciso recorrer a algum ardil. Então, mandaram embaixadores pedir aos cordeiros que lhes entregassem os cães, alegando que eram esses os responsáveis pela hostilidade que havia entre lobos e cordeiros. E que, se lhes confiassem os cães, haveria paz entre eles. Os cordeiros, então, sem prever as consequências, entregaram os cães. E os lobos, com os cães sob controle, também dizimaram facilmente o rebanho, que estava desprotegido.

Assim, também, as cidades que traem seus líderes sem mais nem menos caem rapidamente nas mãos dos inimigos sem perceber.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 348

Esopo 244

Os lobos, os cordeiros e o carneiro

Lobos enviaram embaixadores aos cordeiros para combinar com eles uma paz duradoura, desde que pudessem pegar os cães e destruí-los. E os cordeiros, tolos, concordaram com isso. Mas um carneiro velho observou: “Como vou confiar e conviver com vocês se, mesmo com cães me guardando, não consigo pastar em segurança?”.

[A fábula mostra] Que a pessoa não deve se despir de uma condição estável, fiando-se em juramentos de inimigos irreconciliáveis.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 349

Esopo 287

O pastor brincalhão

Um pastor tangia seu rebanho para bem longe da aldeia e passava o tempo se divertindo com a seguinte brincadeira: punha-se a gritar aos aldeões por socorro, dizendo que havia lobos atacando suas ovelhas. E os aldeões, por duas ou três vezes, saíram aturdidos em disparada e, depois, voltaram para trás, ridicularizados. Mas por fim aconteceu que os lobos vieram de verdade e, enquanto iam estraçalhando o rebanho, o pastor se pôs a pedir socorro aos aldeões. Mas estes, crentes de que ele estivesse brincando como de costume, pouco se importaram. E assim se deu que o pastor ficou sem suas ovelhas.

A fábula mostra que os mentirosos só têm este lucro: não merecem crédito nem quando dizem a verdade.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 409

Esopo 291

O pastor e os lobinhos

Um pastor encontrou filhotes de lobo e se pôs a cuidar deles com muito zelo, presumindo que, quando adultos, não só iriam vigiar suas ovelhas como também roubar outras e trazê-las para ele. Os filhotes cresceram, mas, assim que tiveram uma brecha, a primeira coisa que fizeram foi dizimar o rebanho do pastor. Ele disse, gemendo: “Mas é bem-feito para mim! Por que é que fui salvar esses bichos, quando eram novinhos, se era preciso matá-los quando adultos?”.

Assim, as pessoas que salvam os malvados não percebem que serão as primeiras vítimas da maldade que elas próprias fortaleceram.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 413