Esopo 253

O menininho que vomitava tripas

Um grupo de pessoas estava no campo imolando um boi e convidou para a refeição os moradores da vizinhança, entre os quais havia uma mulher pobretona, que veio acompanhada do filho. No decorrer da festança, o menininho, que depois de algum tempo começou a se empanturrar de tripas e de vinho, ficou com a barriga estufada e disse, sentindo-se mal: “Mãe, vou vomitar as tripas!”. E a mãe lhe replicou: “As suas, não, filhote, mas as que você comeu!”.

Esta fábula cai bem para um homem devedor, que está sempre pronto para tomar os pertences alheios, mas quando tem que devolvê-los aflige-se de tal modo como se estivesse entregando seus próprios pertences.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 361

Esopo 254

O menino e o corvo

Uma mulher foi consultar o oráculo a respeito de seu filho, que ainda era um bebê, e os adivinhos lhe predisseram que ele iria ser morto por um corvo. Apavorada, ela preparou uma arca bem grande e nela trancafiou o menino, atentando para que ele não fosse morto por um corvo. E assim foi levando a vida, abrindo a arca nas horas certas, para lhe oferecer o alimento necessário. Mas, certa vez, ela abriu a arca e, quando foi recolocar a tampa, o menino, inesperadamente, pôs a cabeça para fora. E foi assim que o ferrolho da tampa, o qual era em forma de corvo, despencou sobre a cabeça dele, matando-o.

A fábula mostra que o desígnio do destino é irrevogável.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 364

Esopo 255

O menino e o escorpião

Um menino estava caçando gafanhotos ao pé da muralha. Já havia catado vários quando avistou um escorpião e, crente de que fosse um gafanhoto, preparou-se para apanhá-lo com a mão em concha. Mas o escorpião arrebitou o ferrão e disse: “Ah, se você tivesse feito isso! Teria perdido até os gafanhotos que catou!”.

Esta fábula nos ensina que não devemos nos comportar da mesma forma com todo mundo, com os bons e com os maus.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 365

Esopo 256

O menino e o leão desenhado

[A fábula mostra] Que a pessoa deve suportar com coragem e sem subterfúgios aquilo que o destino lhe reserva, pois dele não pode escapar.

Um homem velho e medroso, pai de um único filho corajoso e afeiçoado à caça, viu, em sonho, esse filho ser morto por um leão. Temendo que fosse uma visão e que o sonho se mostrasse verídico, construiu um belíssimo aposento suspenso e lá manteve o filho protegido. E, para contentá-lo, também decorou o aposento com pinturas de animais de todas as espécies, entre os quais o desenho de um leão. O rapaz, contudo, quanto mais os contemplava, mais se enchia de dor. E, certa vez, parou diante do leão e disse: “Ô, fera terrível, por culpa sua e do sonho falso de meu pai estou encerrado numa prisão de mulher! O que devo fazer com você?”. Ao dizer isso, deu um murro contra a parede, no intuito de cegar o leão. Foi então que uma farpa de madeira penetrou sob sua unha e provocou uma dor aguda e uma inflamação, que virou um tumor. Disso resultou uma febre alta, que fez o rapaz deixar a vida bem rápido. Assim, de nada lhe adiantou o artifício de seu pai, uma vez que o leão, embora fosse um mero desenho, acabou matando-o.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 366-367

Esopo 257

O menino ladrão e sua mãe

Um menino roubou, na escola, a lousinha de seu colega de classe e levou-a para sua mãe. E ela não o repreendeu; ao contrário, até o elogiou. Então, numa segunda oportunidade, ele roubou um manto e levou-o para a mãe. E, mais uma vez, ela o aceitou. O tempo foi passando e o menino foi crescendo e, quando se tornou um rapaz, já estava empreendendo roubos mais vultosos. Certa vez, porém, apanharam-no em flagrante e, enquanto o levavam, de mãos amarradas, para o carrasco, a mãe seguia atrás, esmurrando o próprio peito. Foi então que o rapaz pediu: “Eu queria falar uma coisa no ouvido de minha mãe”. Ela, mais do que depressa, se achegou a ele, que, com uma mordida, lhe arrancou a orelha. E, quando ela se pôs a recriminar sua impiedade, ele disse: “Se você tivesse me dado uma surra naquele dia em que eu lhe trouxe aquela primeira lousinha que roubei, eu não teria chegado a esse ponto de ser conduzido à morte”.

A fábula mostra que o que não se reprime no início aumenta cada vez mais.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 368

Esopo 258

O menino que estava tomando banho no rio

Certa vez um menino tomava banho no rio e estava quase se afogando, quando viu um viandante e o chamou em socorro. Ele, porém, repreendeu o menino, por seu comportamento abusado. Então o rapazinho lhe disse: “Mas, agora, trate de salvar-me e, depois, quando eu estiver a salvo, repreenda-me!”.

A fábula vale para aqueles que dão pretexto para receber tratamento injusto.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 369