Fedro 4.19

Os cães enviaram legados a Júpiter

Certa vez os cães enviaram legados a Júpiter

para pedir tempos melhores para sua vida,

que os livrasse das afrontas dos homens,

porque lhes davam pão misturado com farelos

e saciavam sua fome principalmente com repugnante esterco. 5

Os legados partiram mas não a passos rápidos;

enquanto procuram com seus faros comida no estrume,

citados, não respondem. A custo finalmente

Mercúrio os encontra e os arrasta perturbados.

Mas então, assim que viram o rosto do grande Júpiter, 10

cagaram por todo o palácio, morrendo de medo.

O grande Júpiter proíbe que eles sejam dispensados; 13

mas vão para fora, impelidos pelos bastões 12

                                (…)

admirados que seus legados não voltavam;

imaginando que algo vil tinha sido cometido pelos seus, 15

após algum tempo ordenam que outros sejam inscritos.

O rumor se espalha sobre os legados anteriores;

temendo que aconteça novamente algo semelhante,

enchem o ânus dos cães de perfume, mas de muito mesmo!

Dão as instruções e pedem que sejam enviados imediatamente.20

Eles saem. Solicitando, logo conseguem o acesso.

Toma assento o máximo genitor dos deuses

e agita o raio; todas as coisas começam a tremer.

Os cães confusos, porque o estrondo tinha sido repentino,

de repente cagam perfume misturado com merda. 25

Os deuses todos gritam que a injúria devia ser punida.

Antes da pena, Júpiter falou assim:

“Não é próprio de um rei não dispensar os legados,

nem é difícil impor uma pena para a culpa deles.

Mas por justiça levareis esta recompensa: 30

não proíbo sejam dispensados, desde que flagelados de fome,

para que possam conter a sua barriga.

E aqueles que vos enviaram tão incontinentes

nunca ficarão sem as afrontas dos homens”.

[Agora os pósteros estão esperando os legados, 35

e quando um vê chegar um novo cão cheira seu cu.]

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.2

As rãs pediram um rei

Quando Atenas florescia sob leis justas,

uma desenfreada liberdade tomou conta da cidade

e a libertinagem soltou o antigo freio.

Aí, tendo os partidos das facções conspirado,

o tirano Pisístrato ocupa a cidadela. 5

Como os atenienses chorassem a triste servidão,

(não porque ele fosse cruel, mas porque toda carga é pesada

para os não acostumados) e começassem a queixar-se,

Esopo contou então a seguinte fábula:

As rãs, que vagavam livres nos pântanos, 10

com grande clamor pediram a Júpiter um rei,

que reprimisse com energia os costumes dissolutos.

O pai dos deuses riu e lhes deu

um pequeno pedaço de pau, que, lançado repentinamente,

aterrorizou, com o movimento e barulho da água, a medrosa espécie. 15

Este permaneceu imerso no lodo por muito tempo, até que,

casualmente, uma pôs silenciosamente a cabeça para fora do charco

e, após examinar o rei, chama todas as outras.

Aquelas, perdido o medo, chegam nadando em desafio,

e a turba atrevida salta sobre o pedaço de pau. 20

Depois de ultrajá-lo com todo tipo de afronta,

enviaram rãs que pedissem um outro rei a Júpiter,

visto ser inútil aquele que lhes havia sido dado.

Então ele lhes enviou uma hidra, que, com seu dente cruel,

começou a dilacerá-las uma a uma. Inertes, 25

tentam em vão fugir da morte, o medo lhes apaga a voz.

Então furtivamente dão a Mercúrio recados para Júpiter,

para que ele socorresse as aflitas. Então o deus, em resposta,

disse: “ Porque não quisestes suportar o vosso bem-estar,

suportai a desgraça.” “Vós também, ó cidadãos”, diz Esopo, 30

aguentai este mal, para que não venha um maior”.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.