Fedro 5.3

O careca e a mosca

Uma mosca picou a cabeça pelada de um careca;

Tentando esmagá-la, deu em si mesmo um forte tapa.

Então ela, zombando: “Quiseste vingar com a morte

a picada de um pequenino inseto; o que farás a ti,

que ao dano acrescentaste a afronta?” 5

Respondeu: “Comigo eu facilmente me reconcilio,

porque sei que não foi minha intenção causar-me dano.

Mas a ti, animal maldito de uma espécie desprezível,

que te deleitas em beber sangue humano,

eu desejaria matar com um incômodo ainda maior”. 10

Este enredo ensina a ser mais digno de perdão

quem erra sem querer. Já aquele que causa dano conscientemente

[julgo ser digno de qualquer castigo.]

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 4.25

A formiga e a mosca

[A fabulazinha recomenda a não fazer nada que não seja útil.]

Uma formiga e uma mosca disputavam acaloradamente

quem era mais importante. A mosca começou primeiro assim:

“Tu podes comparar-te com as minhas glórias?

Moro entre os altares, percorro todos os templos; 5

quando se imola, provo antes as vísceras dos deuses;

sento na cabeça do rei quando acho bom,

e toco de leve os castos lábios das matronas;

não trabalho em nada e desfruto das melhores coisas.

O que semelhante a isso acontece para ti, rústica?” 10

“É glorioso, sem dúvida, o banquete dos deuses,

mas para quem é convidado, não para quem é odiado.

Frequentas os altares? Na certa és enxotada quando chegas.

Mencionas os reis e os lábios das matronas;

Ainda por cima te gabas de coisa que o pudor deve ocultar. 15

Não trabalhas em nada, por isso, quando necessário, nada tens.

Enquanto aplicadamente eu amontoo o grão para o inverno,

te vejo alimentar-te no esterco ao redor do muro;

quando os frios te obrigam a morrer enrijecida,

a mim me acolhe sã e salva uma casa bem provida. 20

Me importunas no verão; quando é inverno, ficas em silêncio.

Sem dúvida, rebati bem a tua soberba”.

Tal fabulazinha distingue as características dos homens,

daqueles que se adornam com falsos louvores

e daqueles cuja virtude exibe uma sólida honra. 25

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 3.6

A mosca e a mula

Uma mosca pousou no timão e, repreendendo a mula,

diz: “Que lerda és! Não queres ir mais rápido?

Olha que eu vou te picar o pescoço com o meu ferrão.”

Respondeu aquela: “Não sou movida por tuas palavras;

mas temo esse que, estando sentado no primeiro banco, 5

tempera as minhas costas com seu flexível flagelo

e contém a minha boca com freios espumantes.

Por isso, leva embora a tua frívola insolência;

pois eu sei quando devo ir devagar e quando devo correr.”

Por esta fábula pode ser merecidamente ridicularizado 10

aquele que sem valor profere vãs ameaças.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Esopo 263

A mosca

Uma mosca caiu numa panela de carne e estava para se afogar no caldo quando disse para si: “Mas pelo menos eu comi, bebi e estou de banho tomado. Se eu morrer, pouco me importa!”.

A fábula mostra que os homens suportam bem a morte quando ela se aproxima sem tortura.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 374

Esopo 264

As moscas

Um enxame de moscas voejava numa despensa e comia do mel que transbordava. E por causa da doçura do alimento elas não se afastavam dali, até que ficaram com as patas grudadas e, sem conseguir alçar voo, foram se afogando no mel, dizendo: “Coitadas de nós, que estamos morrendo por causa de um pequeno prazer”.

Assim, para muitos, a gulodice é causa de muitos males.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 376