Fedro 4.7

Fedro

Tu, crítico de fino olfato, que deprecias meus escritos

e tens repugnância de ler este gênero de brincadeiras,

sustém o livrinho com uma pequena paciência,

enquanto aplaco a severidade de tua fronte

e Esopo aparece em cena com inéditos coturnos: 5

“Que dera nunca, no cume dos bosques de Pélion, tivesse caído

o pinheiro da Tessália a golpes de um machado de dois gumes,

nem Argos, para a ousada viagem de uma morte anunciada,

tivesse fabricado, com ajuda de Palas, o barco

que primeiro franqueou os golfos do inóspito 10

Ponto para a ruína de gregos e bárbaros.

Com efeito, não só chora a casa do soberbo Eeta,

como também jazem os reinos de Pélias, pelo crime de Medéia,

que, encobrindo de vários modos seu caráter cruel,

numa hora, propiciou a fuga graças aos membros de seu irmão, 15

noutra, manchou as mãos das Pelíades com o assassínio do pai”

O que te parece? “Isso também é sem graça”, diz

“e é dito falso, porque Minos, muitíssimo mais antigo,

dominou com sua frota o mar Egeu

e reivindicou o modelo de um império justo”. 20

O que então posso fazer para ti, leitor Catão,

se nem as fabulazinhas nem as tragédias te agradam?

Não sejas totalmente aborrecido com as letras

para que não te causem um aborrecimento maior.

Isto foi dito para aqueles que estão nauseados por sua estupidez 25

e, para serem julgados sábios, insultam até o céu.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 3.16

A cigarra e a coruja

Quem não se ajusta à boa convivência

sofre muitas vezes as punições da soberba.

Uma cigarra fazia um estridente barulho

a uma coruja acostumada a procurar alimento nas trevas

e a pegar no sono durante o dia no oco de um galho. 5

Foi solicitada a que se calasse. Mais fortemente

começou a gritar. Novamente instada com seu rogo,

inflamou-se ainda mais. A coruja, quando viu que para si

nenhum socorro havia e menosprezadas suas palavras,

dirigiu-se à gritona com este ardil: 10

“Porque não me deixam dormir os teus cantos,

que julgarias que é a cítara de Apolo que soam,

tenho a intenção de beber este néctar, que Palas me

presenteou há pouco; se não tens fastio, vem;

bebamos juntas”. Aquela, que ardia de sede, 15

ao mesmo tempo que se inteirava de que sua voz era louvada,

voou avidamente. A coruja, saindo de sua toca,

perseguiu a temerosa e lhe deu a morte.

Assim, morta, concedeu o que tinha negado viva.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.