Esopo 289

O pastor e as ovelhas

Um pastor tangeu suas ovelhas para um bosque de carvalhos e, quando viu uma árvore enorme carregada de bolotas, estendeu embaixo seu capote e, depois, trepou nela para sacudir os frutos. As ovelhas foram comendo as bolotas e, sem perceber, comeram juntamente o capote. Quando o pastor desceu e viu o que acontecera, disse: “Ô, bichos terríveis, vocês fornecem lã para as vestimentas dos outros e a mim, que lhes devoto cuidados, me deixam até sem o capote!?”.

Assim, muitos homens beneficiam, por ignorância, quem não tem nada a ver com eles e se comportam mesquinhamente com seus familiares.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 411

Esopo 290

O pastor e o cão

Um pastor tinha o costume de deixar para seu cão, que era enorme, as ovelhas natimortas e as moribundas. Mas eis que um dia, quando o rebanho já havia entrado no redil, o pastor notou que o cão se aproximava das ovelhas fazendo festa para elas. Então o pastor lhe disse: “Ei, meu caro, tomara que reverta sobre sua cabeça o que você está querendo com elas!”.

Para homem adulador a fábula é oportuna.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 412

Esopo 291

O pastor e os lobinhos

Um pastor encontrou filhotes de lobo e se pôs a cuidar deles com muito zelo, presumindo que, quando adultos, não só iriam vigiar suas ovelhas como também roubar outras e trazê-las para ele. Os filhotes cresceram, mas, assim que tiveram uma brecha, a primeira coisa que fizeram foi dizimar o rebanho do pastor. Ele disse, gemendo: “Mas é bem-feito para mim! Por que é que fui salvar esses bichos, quando eram novinhos, se era preciso matá-los quando adultos?”.

Assim, as pessoas que salvam os malvados não percebem que serão as primeiras vítimas da maldade que elas próprias fortaleceram.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 413

Esopo 292

O pastor e o lobo criado com os cães

Ao encontrar um filhote de lobo recém-nascido, um pastor o recolheu, levando-o para crescer em companhia de seus cães. O filhote, depois de crescido, saía junto com os cães no encalço de qualquer lobo que tivesse roubado uma ovelha. Mas, quando os cães não conseguiam agarrar o lobo e por isso recuavam, o filhote crescido, ao contrário, prosseguia até agarrá-lo e compartilhar da caça, pois, afinal, também era lobo. Só depois é que voltava. E, se nenhum lobo de fora roubasse uma ovelha, ele próprio às escondidas sacrificava uma e a devorava em companhia dos cães. Foi assim até que o pastor, desconfiado, ao compreender o que se passava, pendurou o lobo numa árvore e o matou.

A fábula mostra que de uma natureza malvada não se forma um caráter honesto.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 414

Esopo 293

O pastor que criava um lobo

[A fábula mostra] Que as pessoas de natureza perigosa, quando instruídas em roubar e em levar vantagem, muitas vezes prejudicam até mesmo quem as instruiu.

Um pastor encontrou um lobo pequenino e passou a criá-lo. Tempos depois, quando ele já era grande, ensinou-o a roubar dos rebanhos vizinhos. E o lobo, já instruído, disse: “Agora que você me acostumou a roubar, veja lá se não vai dar falta de muitas de suas próprias ovelhas!”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 415

Esopo 294

O pastor [que levava um lobo ao aprisco] e o cão

Um pastor levava as ovelhas ao aprisco e, com elas, um lobo. Ia trancá-los juntos, não fosse o cão, notando o perigo, alertá-lo: “Como você quer proteger suas ovelhas, pondo para dentro um lobo com o rebanho?”.

[A fábula mostra] Que o convívio com os malvados é capaz de causar danos enormes e contribuir para a morte.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 417

Esopo 295

O pastor e o mar

Um pastor pastoreava seu rebanho num local à beira-mar e, enquanto contemplava o mar calmo e sereno, sentiu desejo de viver da navegação. Vendeu então as ovelhas, comprou tâmaras de palmeiras e, após carregar um navio, lançou-se ao mar. No entanto, o navio soçobrou, em decorrência de uma forte tempestade, e o homem, tendo perdido toda a carga, conseguiu a duras penas chegar a nado à terra. E já estava de volta a bonança quando ele, ao ver uma pessoa em terra enaltecendo a mansidão do mar, observou: “Caríssimo, esse aí está querendo suas tâmaras!”.

Assim, muitas vezes, os sofrimentos se tornam, para os homens ajuizados, ensinamentos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 418