Bábrio 1.4

O pescador e o peixe

Um pescador puxou uma rede recém-lançada

e calhou de ela estar repleta de pesca variada; 

dos peixes, o esguio, fugindo para o fundo,

 ia escapando pelas malhas da rede,

já o grande era apanhado e estendido no barco. 5

Ser pequeno é uma forma de salvação e proteção

contra males. Mas o grande de fama

raramente verias se desvencilhando de perigos.

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.6

O pescador e o peixinho

Um pescador que remexia a orla toda do mar

e preservava a doce vida com uma vara fina,

certa vez pescou com a linha de crina um peixe

pequeno, não dos viçosos para a frigideira.

Então ele, debatendo-se, lhe suplicava assim: 5

“Qual será o teu lucro? ou, que preço encontrarás?

Pois não estou formado; pelo contrário foi anteontem

que junto a esta rocha a mãe lampreia me expeliu.

Agora, então, deixa-me ir, não me mates à toa.

E assim que eu, empanturrado de algas marinhas, 10

me tornar grande, apropriado para ricos jantares,

tu virás então aqui, no futuro, e me apanharás.”

Tais coisas murmurando ele suplicava, debatendo-se,

mas não havia meio de sensibilizar o velho,

que, trespassando-o com um caniço agudo, disse: 15

“Quem não conservou as pequenas coisas, mas seguras,

é frívolo, se tentar caçar coisas invisíveis.”

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.9

O pescador flautista

Um pescador tinha flautas e tocava com habilidade.

E certa vez esperançoso de, sem esforço, uma fartura

de peixes atrair ao som agradável das flautas,

posta a rede, pôs-se a trinar melodiosamente.

E visto que, já cansado de soprar, estava tocava à toa, 5

lançou um arrastão e pegou peixes em quantidade.

E vendo-os se debaterem no chão cada um de um jeito,

disse tais deboches, enquanto limpava a rede:

“Dancem agora sem flauta mesmo. Era melhor vocês

terem dançado antes, quando eu tocava para coros.” 10

     [A fábula fala para os que realizam em vão algum trabalho  além do necessário]

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Esopo 247

O macaco e os pescadores

Um macaco, empoleirado no alto de uma árvore, avistou pescadores à beira do rio lançando a rede e ficou observando o que é que eles faziam. E assim, quando eles recolheram a rede e se afastaram dali para comer os peixes, o macaco desceu da árvore e tentou lançar a rede, pois dizem que esse animal é imitador. Ao manejar as redes, porém, ficou preso. Então ele disse para si: “Mas é bem-feito para mim! Por que é que eu, que não sei pescar, me meti a fazer isso?”.

A fábula mostra que pôr-se a fazer coisas que não convém é não só inútil como também danoso.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 355

Esopo 300

O pescador e a anchova

Um pescador estendeu a rede e pegou uma anchova. Ela, então, lhe suplicou que não a retivesse naquele momento, por ser ainda miudinha, mas que a pegasse mais tarde, já crescida, para um proveito maior. O pescador lhe respondeu: “Mas eu seria muito ingênuo se, tendo nas mãos um ganho, fosse atrás de uma esperança invisível”.

A fábula mostra que o lucro presente, mesmo pequeno, é preferível ao lucro futuro, ainda que grande.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 423

Esopo 301

O pescador, os peixes graúdos e os miúdos

Um pescador arrastou do mar sua rede e, enquanto pegava os peixes graúdos e os dispunha no chão, os miúdos escaparam, por entre as malhas, de volta ao mar.

[A fábula mostra] Que fácil é a salvação para os que não são demasiado prósperos, ao passo que raramente se vê escapar dos perigos uma pessoa que goza de grande reputação.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 424

Esopo 302

O pescador que batia a água

Um pescador chegou a um rio para pescar e estendeu a rede, de modo a cercar a correnteza de uma margem à outra. Em seguida, pôs-se a bater a água com uma pedra amarrada na ponta de uma corda de linho, para espantar os peixes e fazê-los cair distraidamente nas malhas. Então um dos moradores das imediações, ao vê-lo agindo daquele modo, chamou-lhe a atenção por turvar o rio e não permitir que eles bebessem a água limpa. “Mas se o rio não ficar turvo”, respondeu ele, “eu é que terei de morrer de fome!”

Assim, também, os demagogos da cidade têm excelente atuação no momento em que levam as nações à discórdia.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 425

Esopo 303

O pescador que tocava flauta

Um pescador, hábil na arte de tocar flauta, pegou suas flautas e redes e foi para o mar. Instalado sobre uma rocha proeminente, começou a tocar, imaginando que os peixes viriam por si mesmos saltando até ele, atraídos pelo som agradável. Mas, embora tivesse insistido bastante, não obteve sucesso. Então se desfez das flautas, pegou a rede, lançou-a na água e pescou muitos peixes. Depois, retirou-os das malhas, sobre a praia, e ao ver que eles estavam pulando disse: “Ô, bichos miseráveis, quando eu tocava flauta vocês não dançavam, e agora que eu já parei estão fazendo assim!?”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 426

Esopo 304

Os pescadores e o atum

Um grupo de pescadores saiu para pescar e, depois de longo tempo de sofrimento, não pegou nada. Desanimados, os pescadores ficaram sentados no barco. Nisso, um atum, que estava sendo perseguido, surgiu fazendo muito espalhafato e, sem se dar conta, saltou para dentro da barca. Então eles o pegaram, levaram à cidade e o venderam.

Assim, muitas vezes o que a arte não proporciona a sorte concede como prêmio.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 427

Esopo 305

Os pescadores que pescaram uma pedra

Um grupo de pescadores estava puxando uma rede. E, como ela estivesse pesada, eles começaram a dançar, eufóricos, imaginando que a pesca era farta. Quando, porém, arrastaram a rede para a praia e viram que os peixes eram poucos e que a rede estava cheia de paus e pedras, ficaram desacorçoados. O desânimo advinha não tanto do fato em si quanto da expectativa frustrada. Foi então que um deles, uma pessoa idosa, lhes disse: “Companheiros, vamos parar com isso! A alegria, ao que parece, é irmã da tristeza, e nós, que de antemão ficamos tão felizes, precisávamos de qualquer modo experimentar também algum desgosto!”.

Pois é. Portanto, também nós quando vemos a facilidade mudanças na vida, com que se dão as não devemos nos deleitar sempre com as mesmas coisas, considerando que, depois da bonança, é inevitável que venha a tempestade.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 428