O cervo junto aos bois
Um cervo, enxotado de seus esconderijos no bosque,
para fugir da iminente morte por caçadores,
dirigiu-se em seu cego medo a uma chácara próxima
e se refugiou em um oportuno curral.
Aí um boi diz ao que se escondia: “O que quiseste para ti, 5
infeliz, tu, que correste espontaneamente para a morte
e confiaste tua vida ao teto dos homens?”
Mas ele suplicante: “Vós”, diz, “poupai-me apenas;
dada a ocasião, sairei novamente”.
A vez da noite toma o lugar do dia. 10
O vaqueiro traz a forragem, e nada vê.
Vão e vêm, em seguida, todos os camponeses,
ninguém nota; passa também o caseiro,
nem ele percebe coisa alguma. Então o animal, alegrando-se,
começou a agradecer os bois silenciosos, 15
por terem prestado hospitalidade num momento adverso.
Respondeu um: “Na verdade te desejamos salvo,
mas se vier aquele que tem cem olhos,
tua vida estará em grande perigo”.
Nisso, o próprio dono volta do jantar 20
e, como tinha visto há pouco que os bois estavam emagrecendo,
aproxima-se do estábulo: “Por que há pouca forragem,
Faltam palhas? Que trabalhão é tirar
essas teias de aranha?” Enquanto examina cada coisa,
vê também os altos chifres do cervo; 25
convocada a criadagem, ordena que seja morto
e leva a presa. Esta fábula quer dizer
que o dono vê muito mais em seus negócios.
Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.