Fedro 3.1

A velha a uma ânfora

Uma velha viu jogada no chão uma ânfora vazia,

que, devido à borra do Falerno, exalava de longe

de sua nobre argila um prazeroso odor.

Depois de aspirá-lo, ávida, com suas narinas inteiras:

“Ó suave aroma, sendo tais os restos, eu direi 5

como era bom o que havia em ti anteriormente!”

Quem me conhecer dirá a que isso se refere.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 2.2

A velha e a garota que amavam um jovem

Que os homens são de todo modo espoliados pelas mulheres,

amem ou sejam amados, aprendemos certamente pelos exemplos.

Uma mulher não inexperiente, ocultando seus anos

com elegância, amava um certo homem de idade mediana

e desse mesmo homem uma linda jovem tinha conquistado o coração.5

As duas, querendo parecer iguais a ele na idade,

começaram a arrancar alternadamente os cabelos do homem.

Este, que achava que era cuidado pelo capricho das mulheres,

de repente ficou careca; pois a garota tinha arrancado

pela raiz os brancos e a velha, os negros. 10

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Esopo 230

O lobo e a velha

Um lobo faminto zanzava à procura de comida. Ao chegar numa estalagem, ouviu uma criança choramingando e uma velha dizendo, em tom de ameaça: “Pare de chorar, senão vou jogar você para o lobo!”. E o lobo, crente de que a velha falava sério, parou e ficou à espera. A tarde caiu e o lobo, ao ver que nada se seguia àquelas palavras, foi embora, dizendo para si: “Nessa estalagem, as pessoas falam uma coisa mas fazem outra!”.

Esta fábula cairia bem para aqueles homens cujas ações não se coadunam com suas palavras.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 333

Esopo 318

O rapazote e a velha

Um rapazote ia por um caminho num dia de calor ardente e encontrou por acaso uma velhota, que foi seguindo pelo mesmo caminho em companhia dele. De repente, a velhota desmaiou por conta do calor ardente e da fadiga da caminhada. O rapaz, condoído de sua fragilidade, pois ela estava sem forças para prosseguir, ergueu-a do chão e pôs-se a carregá-la nos ombros. Enquanto a levava, sentiu-se terrivelmente perturbado com certos pensamentos indecentes, nutridos pelo furor da libertinagem e do intenso desejo, que lhe puseram o falo a prumo. Imediatamente ele depôs a velhota no chão e começou a fazer com ela um ato libidinoso. Ela, então, perguntou, sem malícia: “O que é isso que está agindo em mim?”. Ele respondeu: “Você é pesada e por isso resolvi desbastar um tanto de sua carne”. Disse isso e concluiu a safadeza com ela. Em seguida, tornou a erguê-la do chão e colocou-a nos ombros. Ele havia percorrido uma pequena extensão do caminho, quando a velha disse: “Se você acha que meu peso ainda está insuportável, ponha-me no chão e desbaste mais carne de meu corpo”.

Esta fábula mostra que alguns homens saciam um desejo pessoal e, depois, alegam que praticaram a ação inocentemente, tentando passar a ideia de que, premidos pela necessidade, praticaram outra coisa, e não aquela que deveras praticaram.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 448-449

Esopo 357

A velha e o médico

Uma velha senhora, doente dos olhos, contratou os serviços de um médico. Ele vinha à sua casa, passava remédio em seus olhos e, enquanto ela os mantinha fechados, aproveitava para surrupiar algum de seus móveis. E, depois que levou tudo embora, encerrou o tratamento e cobrou o valor combinado. Tendo ela se recusado a fazer o pagamento, o médico levou-a ao tribunal. A senhora, no entanto, confirmou que tinha, sim, proposto a remuneração, se ele curasse seus olhos, mas na realidade o que aconteceu foi que com aquele tratamento ela tinha ficado pior do que antes. “Pois naquela época”, afirmou, “eu enxergava todos os móveis da casa, e agora não consigo ver nenhum!”.

Assim, os homens malvados não percebem que, por cobiça, arrastam contra si as provas de sua malvadeza.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 512