Esopo 368

Os viandantes e o machado

Estavam dois homens seguindo por um mesmo caminho. Eis que um deles encontrou um machado e o outro disse: “Nós encontramos um machado!”. Então, aquele que encontrou o machado recomendou que o outro dissesse “você encontrou um machado”, e não “nós encontramos um machado”. Pouco tempo depois, vieram ao encalço deles as pessoas que tinham perdido o machado. Então, aquele que estava com o machado, ao ver-se acuado, disse para o companheiro de viagem: “Nós estamos ferrados!”. E o companheiro retrucou: “Não diga ‘nós estamos ferrados’ mas ‘eu estou ferrado’, pois quando você encontrou o machado não quis dividi-lo comigo!”.

A fábula mostra que os que não são solidários nas situações afortunadas tampouco nos infortúnios são amigos confiáveis.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 524

Esopo 369

Os viandantes e o urso

Dois amigos iam por uma mesma estrada quando, de repente, surgiu diante deles um urso. Então, um subiu depressa numa árvore e lá ficou escondido. O outro, sem ter para onde fugir, caiu no chão e fingiu-se de morto. O urso chegou com o focinho perto dele e se pôs a farejá-lo, enquanto ele, por sua vez, prendia a respiração, pois dizem que esse animal não toca em cadáveres. Depois que o urso foi embora, o amigo que estava na árvore perguntou o que o urso lhe havia cochichado. Então, o outro respondeu: “Que de hoje em diante eu não devo andar em companhia desses amigos que, nas situações perigosas, nos abandonam”.

A fábula mostra que as desgraças põem à prova os amigos sinceros.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 525

Esopo 370

Os viandantes e os destroços de madeira

Um grupo de viandantes caminhava ao longo de uma praia. Quando chegaram a um promontório, avistaram ao longe destroços de madeira flutuando. Imaginando que se tratava de um grande navio de guerra, ficaram esperando que ele viesse encostar. Mas quando os destroços, carregados pela maré, ficaram mais próximos, eles tiveram a impressão de estar vendo um cargueiro, pois eram menores do que aparentavam. E, quando os viram fora da água e constataram que eram meros destroços, comentaram entre si: “Ficamos esperando à toa uma coisa que não existe!”.

Assim, também, alguns homens à primeira vista dão a impressão de serem temíveis, mas quando postos à prova mostram-se indignos de consideração.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 526