Esopo 332

A raposa que afagava um cordeirinho e o cão

Uma raposa se meteu num rebanho de ovelhas, agarrou um cordeirinho e começou a fingir que o acarinhava. “Por que você está fazendo isso?”, perguntou-lhe um cão. E ela: “Estou lhe fazendo carinho e brincando com ele!”. E o cão: “Mas agora mesmo eu vou fazer carícias de cão em você, se não deixar em paz o cordeirinho!”.

Para homem inescrupuloso e ladrão imbecil a fábula é oportuna.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 470

Esopo 333

As raposas à beira do rio Meandro

Certa vez, um bando de raposas se juntou à beira do rio Meandro, ávidas de sua água. Apesar do mútuo incentivo, as raposas não se atreviam a entrar, dada a força da correnteza. Então, uma delas, no intuito de debochar da covardia das demais e humilhá-las, declarou-se a mais corajosa e lançou-se destemida na água. E, enquanto a correnteza a levava para o meio do rio, as outras, em pé junto à barranca, lhe diziam: “Não nos abandone! Volte e mostre-nos o trecho por onde podemos beber sem perigo!”. E ela, que estava sendo arrastada, disse: “Tenho que ir a Mileto entregar um recado. Mas na volta eu mostro para vocês!”.

Para aqueles que, por presunção, se expõem ao perigo.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 471

Esopo 334

O rato silvestre e o rato caseiro

Um rato silvestre era amigo de um rato caseiro.

E o caseiro, ao ser convidado pelo amigo,

foi ao campo sem demora para um jantar.

E dizia, enquanto comia cevada e trigo:

“Sabe, amigo, você leva vida de formigas.

Pelo visto, eu é que tenho recursos fartos,

e todos ao seu dispor, é só vir comigo”.

E no mesmo instante se foram os dois.

E o caseiro ofereceu ervilhas e trigo,

junto com tâmaras, queijo, mel e frutas.

Maravilhado, o outro muito o bendizia,

enquanto protestava contra a própria sorte.

Mas, quando quiseram começar a refeição,

uma pessoa abriu a porta de supetão.

Com o rangido, os dois saltaram assustados

e foram para dentro das fendas os pobres ratos.

E quando de novo iam pegar figos secos,

outra pessoa veio lá pegar um troço.

Assim que de novo avistaram a pessoa,

num salto se ocultaram dentro de um buraco.

Então, o rato silvestre, apoucando a fome,

soltou um gemido e disse para o outro:

“Passe bem, amigo, e coma sua fartura,

degustando seus manjares com deleite,

e com perigos e também com sobressaltos.

Comendo cevada e trigo, eu, o coitado,

sem desassossegos vou viver e sem sustos!”.

A fábula mostra que levar vida frugal e viver sem cuidados vale mais que viver no luxo, entre medos e aflições.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 472-473

Esopo 335

O rato e a rã

Um rato da terra teve o azar de fazer amizade com uma rã. Decidida a praticar maldade, a rã amarrou a pata do rato à sua própria e lá foram os dois, primeiro ao campo, para comer trigo, e a seguir chegaram à beira da lagoa. Então, a rã empurrou o rato para o fundo, enquanto ela própria se escarrapachava na água berrando seus coax-coax-coax. O pobre rato acabou morrendo, cheio de água, e ficou boiando, amarrado ao pé da rã. Foi então que um milhafre o avistou e, com as garras, apanhou-o. E a rã, presa que estava a ele, seguiu junto, tornando-se, ela também, manjar para o milhafre.

[A fábula mostra] Que mesmo quem está morto tem força para vingar-se, pois a justiça divina supervisiona tudo e retribui o equivalente a cada ação, pesando-a na balança.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 474

Esopo 336

Os ratos e as doninhas

Os ratos e as doninhas viviam em guerra, mas sempre eles é que saíam derrotados. Os ratos fizeram uma reunião e concluíram que estavam perdendo porque não tinham chefes. Então, selecionaram alguns candidatos e, levantando a mão, elegeram seus generais. E estes, no intuito de se destacarem dos outros, arrumaram chifres e passaram a usá-los. Quando se instalou a batalha, o que aconteceu foi que os ratos iam sendo derrotados. Mas, enquanto alguns se refugiavam em buracos onde entravam com facilidade, os generais, impedidos de entrar por causa dos chifres, foram apanhados e devorados.

Assim, para muitos, a vanglória torna-se causa de males.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 475

Esopo 337

O ricaço e as carpideiras

Um homem rico tinha duas filhas. Quando uma delas morreu, ele contratou carpideiras. Então, a outra filha disse à mãe: “Somos umas coitadas! Nós, que padecemos a dor, não sabemos prantear, enquanto elas, que nem são parentes, estão se batendo e se debulhando em lágrimas”. A mãe respondeu: “Mas não se admire, filha, se o pranto delas é tão comovente. É por dinheiro que estão fazendo isso!”.

Assim, certos homens, por amor ao dinheiro, não hesitam em empreitar até as desditas alheias.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 476

Esopo 338

O ricaço e o curtumeiro

Um homem rico se tornou vizinho de um curtumeiro e, como não podia suportar o fedor, vivia pedindo a ele que se mudasse dali. Mas o curtumeiro sempre o engambelava, dizendo que iria se mudar em breve. A coisa se repetiu várias vezes. Por fim, sucedeu que o ricaço, com o passar do tempo, se habituou ao odor e não mais importunou o curtumeiro.

A fábula mostra que o hábito suaviza até as tarefas complicadas.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 477

Esopo 339

O rio e a pele curtida

[A fábula mostra] Que uma desventura da vida joga por terra o homem audacioso e arrogante.

Um rio perguntou a uma pele de boi que estava sendo levada por suas águas: “Como você se chama?”. “Eu me chamo Rija”, respondeu ela. E, lançando sobre a pele seu fluxo aos borbotões, o rio disse: “Procure outro nome, pois já vou fazer você ficar mole”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 478

Esopo 340

Os rios e o mar

Os rios formaram uma comitiva e foram até o mar fazer uma queixa, dizendo assim: “Quando entramos em suas águas, somos água doce e potável, mas você nos converte em água salgada e intragável. Por quê?”. E o mar, vendo que eles o repreendiam, replicou: “Ora, não venham e não fiquem salobres!”.

Esta fábula representa aquelas pessoas que responsabilizam os outros inoportunamente, mesmo que deles estejam recebendo uma ajuda.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 479

Esopo 341

A romãzeira, a macieira e o espinheiro

A romãzeira e a macieira estavam discutindo a respeito da excelência de seus frutos. Como a discussão estava muito inflamada, um espinheiro, que de uma sebe ao lado as ouvia, disse: “Amigas, vamos acabar de uma vez por todas com esta nossa discussão!”.

Assim, em meio às querelas entre os melhores, até os que não têm mérito nenhum tentam dar a impressão de ser alguém.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 480