Fedro 5.1

O rei Demétrio e o poeta Menandro.

Demétrio que foi chamado de Falério

apoderou-se de Atenas com um governo tirânico.

O povo, como de costume, irrompe de todo lado e à porfia,

gritando “Viva!”. Até mesmo os mais notáveis

beijam aquela mão, pela qual foram oprimidos, 5

lamentando, em silêncio, a triste vicissitude da fortuna.

Também os preguiçosos e os que buscam o ócio

se arrastam por último para a ausência não lhes causar dano;

entre esses, Menandro, famoso por suas comédias

que Demétrio, não o conhecendo pessoalmente, tinha lido 10

e tinha admirado o talento do homem;

untado de perfume, esvoaçando suas vestes,

ele vinha com passo delicado e malemolente.

Quando o tirano o viu no fim da fila:

“Quem é aquele bicha que se atreve a vir 15

à minha presença?” Responderam os mais próximos:

“Este é o escritor Menandro”. Mudado imediatamente,

disse: “Impossível existir um homem mais formoso”.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 5.2

Os viajantes e o ladrão

Como dois soldados tivessem deparado com um ladrão,

um fugiu, o outro, porém, ficou

e se defendeu com sua forte destra.

Derrubado o ladrão, o companheiro medroso acorre

e saca da espada; em seguida, jogando a capa para trás, 5

diz: “Deixa comigo; já cuidarei que ele sinta

com quem se meteu”. Aí, o que tinha lutado:

“Quisera eu que, ao menos, me tivesses ajudado com essas palavras;

eu teria sido mais resoluto, julgando-as verdadeiras.

Agora guarda tua espada e tua língua igualmente inúteis. 10

Que possas enganar os outros que te desconhecem;

eu, que constatei com quanto empenho foges,

sei o quanto não se deve acreditar em teu valor”.

Esta história deve ser aplicada àquele

que, numa situação favorável, é valente, numa incerta, é covarde. 15

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FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 5.3

O careca e a mosca

Uma mosca picou a cabeça pelada de um careca;

Tentando esmagá-la, deu em si mesmo um forte tapa.

Então ela, zombando: “Quiseste vingar com a morte

a picada de um pequenino inseto; o que farás a ti,

que ao dano acrescentaste a afronta?” 5

Respondeu: “Comigo eu facilmente me reconcilio,

porque sei que não foi minha intenção causar-me dano.

Mas a ti, animal maldito de uma espécie desprezível,

que te deleitas em beber sangue humano,

eu desejaria matar com um incômodo ainda maior”. 10

Este enredo ensina a ser mais digno de perdão

quem erra sem querer. Já aquele que causa dano conscientemente

[julgo ser digno de qualquer castigo.]

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FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 5.4

O burro e o porquinho.

Após ter imolado um cachaço ao venerável Hércules,

a quem devia uma promessa por sua salvação, um sujeito

ordenou que fosse posto ao burrinho as sobras da cevada.

Este, tendo-as rejeitado, falou assim:

“Com todo prazer eu desejaria essa comida, 5

se quem foi alimentado com ela não tivesse sido degolado”.

Dissuadido pela reflexão desta fábula

eu sempre evitei o lucro perigoso.

Mas dizes: “Os que roubaram riqueza, as têm”.

Eia, contemos os que, depois de presos, morreram: 10

descobrirás que é maior a turma dos punidos.

A temeridade é um bem para poucos e um mal para muitos.

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FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 5.5

O bufão e o camponês

Os mortais costumam enganar-se por uma perversa parcialidade

e, enquanto insistem na opinião baseada em seu próprio erro,

evidenciados os fatos, são levados a se arrepender.

Um nobre rico, prestes a realizar jogos,

proposto um prêmio, convidou a todos 5

para que cada um mostrasse a novidade que pudesse.

Vieram artistas para a disputa da glória;

entre eles um bufão, conhecido por seu fino humor,

que disse ter um tipo de espetáculo

que nunca tinha sido apresentado no teatro. 10

O rumor se espalha e excita a cidade.

Os lugares, pouco antes vazios, faltam à multidão.

Mas depois que se postou no palco

sem aparato, sem nenhum ajudante,

a própria expectativa fez silêncio. 15

De repente ele enfiou a cabeça na prega da veste

e de tal modo imitou a voz do porquinho com a sua,

que afirmavam que havia um de verdade sob o manto

e ordenavam que fosse sacudido. Feito isso, assim que

nada foi encontrado, o acumulam de muitos louvores 20

e acompanham o homem com o maior aplauso.

Um camponês viu isso acontecer: “Por hércules, não

me vencerá”, diz, e imediatamente prometeu

que no dia seguinte faria a mesma coisa melhor.

A multidão se fez maior. Já a parcialidade ocupa as mentes 25

e elas se sentam com intuito de ridicularizar, não de assistir.

Ambos se apresentam. O bufão grunhe primeiro

e move aplausos e provoca clamores.

Então o camponês, fingindo que encobria

um porquinho nas vestimentas (o que realmente fazia, 30

mas despercebido, visto não terem achado nada no primeiro),

puxa a orelha do verdadeiro, que ele tinha escondido,

e com a dor solta a voz da natureza.

O povo proclama que o bufão com muito mais semelhança

 imitou e força o camponês a ser posto para fora. 35

Mas ele tira o próprio porquinho das dobras,

demonstrando o vergonhoso erro com uma prova clara:

“Eis que este declara que espécie de juízes vós sois!”

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FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 5.6

O careca e um certo sujeito igualmente desprovido de cabelos.

Um careca encontrou casualmente numa esquina um pente.

Aproximou-se um outro igualmente desprovido de cabelos.

“Ei,” diz, “é nosso, seja qual for o lucro!”

Aquele mostrou o achado e ao mesmo tempo acrescentou:

“A vontade dos deuses nos favorece; mas por um fado odioso, 5

encontrei, como dizem, carvão em vez de tesouro”.

A queixa convém a este que a esperança enganou.

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FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 5.7

Príncipe, o flautista.

Quando um espírito vazio, seduzido por uma brisa frívola,

arrebatou para si uma confiança excessiva,

sua tola leviandade é facilmente conduzida para a chacota.

Príncipe foi um flautista um pouco mais conhecido,

acostumado a acompanhar a Batilo em cena. 5

Casualmente ele, em uns espetáculos, (não lembro bem em quais),

enquanto era recolhido o cenário, levou acidentalmente

um grave tombo e quebrou a tíbia esquerda,

quando teria preferido perder as duas direitas.

Erguido nos braços e gemendo muito 10

é levado para casa. Passam alguns meses,

até que o tratamento chega à recuperação.

Como é próprio dos espectadores, uma espécie delicada e alegre,

começou-se a sentir falta daquele com cujos sopros

o vigor do dançarino costumava ser estimulado. 15

Um certo nobre estava para realizar uns jogos.

Como Príncipe começava a andar novamente,

o persuade com dinheiro e com rogos a que somente

se mostrasse no próprio dia dos jogos.

Assim que chega o dia, um rumor sobre o flautista 20

ressoa no teatro: alguns afirmam que morreu,

outros, que vai se apresentar à vista sem demora.

Baixado o pano, rolados os trovões,

os deuses falaram segundo o costume tradicional.

Então o coro entoou um cântico desconhecido 25

para o que acabara de regressar, cujo conteúdo era este:

“Alegra-te, Roma incólume, com seu príncipe são e salvo.”

Levantou-se para os aplausos. O flautista joga beijos;

acha que os admiradores o felicitam.

A ordem equestre percebe o tolo erro 30

e com grande riso manda que o cântico seja repetido.

Ele é executado de novo. O meu homem se dobra todo

no palco. O cavaleiro, zombando, aplaude;

o povo acha que esse pede uma coroa.

Porém, quando o assunto foi conhecido em todas as fileiras, 35

Príncipe, com sua perna atada com uma faixa branca,

com sua túnica branca, com seus calçados também brancos,

enquanto se ensoberbece com a honra da divina casa,

é atirado de cabeça por todos para fora.

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FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 5.8

O tempo

Em alada corrida, equilibrando-se numa navalha,

calvo, com a fronte cabeluda, com o corpo nu,

o qual, se o apanhares, que o agarres, uma vez escapado

nem o próprio Júpiter pode segurá-lo,

representa a breve oportunidade das situações. 5

Para que a preguiçosa demora não impedisse os projetos,

os antigos criaram essa imagem do Tempo.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 5.9

O touro e o novilho

Como um touro, lutando com os chifres numa passagem

estreita, mal pudesse entrar no curral,

um novilho mostrava de que modo ele devia dobrar-se.

“Cala-te”, diz, “sei isso antes de teres nascido”.

Quem corrige um mais sábio considere que isto é dito para si. 5

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FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 5.10

O cão, o javali e o caçador

Um cão forte e veloz contra todas as feras,

embora sempre tivesse satisfeito ao seu dono,

com os anos pesando, começou a enfraquecer-se.

Certa vez, lançado à luta com um hirsuto javali,

agarrou-lhe a orelha; mas por causa de seus dentes estragados 5

soltou a presa. Então o caçador, lamentando,

repreendia o cão. Em resposta a ele, o velho lacedemônio:

“Não te abandonou a minha coragem, mas as minhas forças.

Louva o que fomos, se já condenas o que somos”.

Vês bem, Fileto, por que escrevi isto. 10

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FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.