Esopo 182

As idades do homem

Quando Zeus fez o homem, deu a ele uma vida breve. Mas o homem usou seu conhecimento e, quando estava próximo o inverno, fabricou para si uma casa e lá ficou vivendo. E, certa vez, quando fez um frio rigoroso e Zeus fez chover, o cavalo não pôde resistir e foi correndo à casa do homem pedir-lhe abrigo. O homem disse que só o atenderia se ele lhe cedesse uma parte de seus anos de vida. O cavalo, então, cedeu-a de bom grado. Não muito tempo depois, apareceu também o boi, pois nem ele estava podendo suportar a borrasca. Do mesmo modo, o homem disse que o acolheria se ele primeiro lhe entregasse um certo número de seus anos de vida. O boi, então, deu uma parte e foi acolhido. Por último chegou o cão, morrendo de frio, e, tendo partilhado também uma porção de seu tempo de vida, conseguiu abrigo. O resultado disso é que os homens, quando estão no tempo concedido por Zeus, são puros e bons, mas quando vivem os anos do cavalo são fanfarrões e empertigados; quando chegam aos anos do boi, tornam-se dominadores; e quando completam o tempo do cão ficam irascíveis e resmungões.

Uma pessoa poderia usar esta fábula para um velho irascível e intratável.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 271-272

Esopo 183

Os inimigos

Dois inimigos entraram num mesmo navio para fazer uma viagem. E, como eles desejavam ficar bem longe um do outro, um foi correndo tomar assento na popa, enquanto o outro ficou na proa. Foi então que sobreveio uma tempestade violenta e, como o navio ameaçasse ir a pique, aquele que estava sentado na popa perguntou ao piloto que parte do navio corria o risco de afundar primeiro. Ao ser informado de que era a proa, disse: “Mas, no que me toca, a morte deixa de ser uma coisa tão triste, já que pelo menos verei meu inimigo se afogar antes de mim!”.

Assim, alguns homens, movidos por alguma hostilidade contra o próximo, optam por sofrerem eles próprios alguma desgraça, em vista da chance de verem também o outro se desgraçar.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 273

Esopo 184

O Inverno e a Primavera

O Inverno zombou da Primavera e criticou-a, dizendo que, tão logo ela surgia, ninguém mais tinha sossego, pois quem gostava de colher flores e lírios, ou então de fazer girar uma rosa diante dos olhos ou colocá-la nos cabelos, ia para os prados e bosques, enquanto outros, se tinham chance, tomavam um navio e cruzavam o mar, para fazer visitas. Era assim porque ninguém mais se preocupava com ventos nem com enchentes. “Eu, ao contrário”, prosseguiu o Inverno, “pareço um comandante ou um senhor autoritário, e faço os homens olhar não para o céu, mas para baixo, para o chão. Provoco neles o medo e o tremor, e há ocasiões em que os obrigo a passar os dias dentro de casa.” “Mas é justamente por isso”, retrucou a Primavera, “que os homens ficam alegres quando você vai embora. Quanto a mim, eles acham lindo até meu nome, ou melhor, por Zeus, acham que ele é o nome mais lindo! Tanto é que, quando me ausento, eles me conservam na lembrança e, quando apareço, eles se enchem de alegria.”

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 274

Esopo 185

O javali e a raposa

Um javali parou junto de uma árvore e começou a aguçar suas presas. Então, uma raposa lhe perguntou por que motivo estava limando as presas, se não havia a iminência de algum caçador ou de outro perigo qualquer. Ele respondeu: “Mas não é à toa que estou fazendo isso! É que, se algum perigo me surpreender, não terei o trabalho de afiá-las e elas já estarão prontas para o uso”.

A fábula ensina que devemos cuidar com antecedência dos preparativos contra os perigos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 277

Esopo 186

O javali, o cavalo e o caçador

Um javali e um cavalo viviam num mesmo pasto. E, como o javali a todo momento destruía a relva e turvava a água, o cavalo tomou a decisão de vingar-se e recorreu a um caçador. Este lhe respondeu que não podia socorrê-lo, a não ser que ele aceitasse uma rédea e o levasse na garupa. O cavalo sujeitou-se a tudo. E o caçador, montado sobre ele, deu cabo do javali e, depois, conduziu o cavalo à cocheira, onde o prendeu.

Assim, muitas pessoas, movidas por uma cólera irracional, caem elas mesmas submissas a outrem, por desejarem vingar-se dos inimigos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 278

Esopo 187

O jovem pródigo e a andorinha

Um jovem pródigo esbanjou seu patrimônio, tendo-lhe sobrado um único manto. E quando viu uma andorinha, que estava chegando fora de época, ele pegou o manto e o vendeu também, presumindo que já era verão e que não mais precisaria dele. Mais tarde, porém, sobreveio o inverno e fez um frio rigoroso. E o jovem, enquanto perambulava, viu a andorinha morta, entanguida, e disse para ela: “Você se ferrou, minha cara, e me ferrou também!”.

A fábula mostra que tudo o que é feito fora de época vem a ser movediço.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 279

Esopo 188

O Juramento

Um homem, que recebera de um amigo um depó- sito em confiança, maquinou um plano para fraudá-lo. E, quando o amigo ia chamá-lo para prestar juramento, ele, precavendo-se, se pôs a caminho do campo. Já nas portas da cidade, viu saindo um homem manco e lhe perguntou quem era e para onde ia. Tendo ele respondido que era o Juramento em pessoa e que ia ao encontro dos ímpios, o depositário lhe perguntou, em seguida, de quanto em quanto tempo ele costumava vir às cidades. “A cada quarenta anos, às vezes trinta”, respondeu ele. E o outro, sem hesitar, jurou no dia seguinte que não havia recebido o tal depósito. Mas, depois, ao deparar com o Juramento e ser levado por ele à beira de um abismo, começou a recriminá-lo por ele ter dito que estaria de volta depois de trinta anos, mas na realidade não lhe dera um único dia de sossego. Então, o Juramento lhe respondeu: “Mas esteja bem certo de que, quando alguém está para molestar-me, eu costumo voltar no mesmo dia”.

A fábula mostra que a vingança divina chega sem dia marcado.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 280

Esopo 189

O ladrão e o albergueiro

Um ladrão alojou-se num albergue e lá ficou por alguns dias planejando fazer um roubo, mas não conseguiu realizar seu propósito. Certo dia, ao ver o albergueiro trajando uma roupa nova e vistosa (era dia de festa!) e sentado diante da porta do albergue sem ninguém por perto, o ladrão sentou-se ao lado dele e começou a conversar. E já haviam conversado um bom tanto quando o ladrão deu um bocejo e, em seguida, começou a uivar feito um lobo. Disse-lhe, então, o albergueiro: “Por que você está uivando assim?”. E o ladrão respondeu: “Vou lhe contar agora mesmo. Mas, primeiro, imploro que tome conta de meu manto, que vou deixar aqui. Eu não sei, meu senhor, de onde me vem esse bocejar. Não sei se é devido aos meus erros ou a alguma outra causa. Só sei que, depois que dou três bocejos, eu viro um lobo comedor de gente!”. Disse isso e bocejou pela segunda vez e, novamente, começou a uivar, igual à primeira vez. Ao ouvir isso, o albergueiro, que acreditara no ladrão, se apavorou e levantou-se, querendo fugir. Mas o ladrão o segurou pela túnica e lhe disse, implorando: “Espere, meu senhor, segure meu manto, para que eu não o destrua”. Enquanto implorava, abriu a boca e começou a bocejar pela terceira vez. O albergueiro, apavorado – e se ele o comesse?! –, deixou para trás sua própria roupa, entrou correndo no albergue e se refugiou lá dentro. Então, o ladrão se apoderou da roupa e foi embora.

Padecem assim os que acreditam no que não é verdade.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 283-284

Esopo 190

Os ladrões e o galo

Ladrões entraram numa casa e nada encontraram além de um galo. Pegaram-no e foram embora. Quando estava para ser imolado, o galo começou a implorar que o soltassem, dizendo que ele era útil para os homens, pois os despertava à noite para os afazeres. De pronto, os ladrões lhe disseram: “Mas é justamente por isso que vamos sacrificar você, pois, ao despertar os homens, você atrapalha nossa gatunagem!”.

A fábula mostra que o que mais incomoda os perversos é justamente o que beneficia as pessoas de bem.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 285

Esopo 191

A lamparina

Uma lamparina encharcada de óleo luzia envaidecida, como se estivesse brilhando mais que o Sol. Porém, quando soprou um golpe de vento, ela imediatamente se apagou. Então lhe disse uma pessoa, ao acendê-la novamente: “Ilumina, lamparina, e bico calado! A luz dos astros nunca se apaga!”.

[A fábula mostra] Que, na vida, a pessoa não deve se enfunar com glórias e esplendores, pois tudo quanto adquire não lhe pertence.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 286