Esopo 242

Lobos e cães em guerra

Certa vez, quando os lobos e os cães estavam em pé de guerra, um cão grego, eleito o general dos caninos, tentava adiar o combate, ao passo que os lobos faziam ameaças terríveis. Então o cão disse aos lobos: “Sabem por que razão eu vou com calma? É porque preciso deliberar com cautela. Vocês pertencem a uma só raça e são todos de uma só cor, enquanto nós temos hábitos diversos e nos ufanamos de nossas terras. Além disso, nossa cor não é uma mesma e única; ao contrário, uns são pretos, outros, avermelhados, e outros, ainda, brancos e cinzentos. E como posso conduzi-los à guerra se eles são tão discordantes e desiguais em tudo?”.

[A fábula mostra] Que, quando há consenso na deliberação e no pensamento, todas as expedições alcançam vitória sobre as adversidades.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 347

Esopo 243

Os lobos e os cordeiros

Estavam uns lobos de olho num rebanho de cordeiros e, como não conseguiam agarrá-los por causa dos cães vigilantes, reconheceram que seria preciso recorrer a algum ardil. Então, mandaram embaixadores pedir aos cordeiros que lhes entregassem os cães, alegando que eram esses os responsáveis pela hostilidade que havia entre lobos e cordeiros. E que, se lhes confiassem os cães, haveria paz entre eles. Os cordeiros, então, sem prever as consequências, entregaram os cães. E os lobos, com os cães sob controle, também dizimaram facilmente o rebanho, que estava desprotegido.

Assim, também, as cidades que traem seus líderes sem mais nem menos caem rapidamente nas mãos dos inimigos sem perceber.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 348

Esopo 244

Os lobos, os cordeiros e o carneiro

Lobos enviaram embaixadores aos cordeiros para combinar com eles uma paz duradoura, desde que pudessem pegar os cães e destruí-los. E os cordeiros, tolos, concordaram com isso. Mas um carneiro velho observou: “Como vou confiar e conviver com vocês se, mesmo com cães me guardando, não consigo pastar em segurança?”.

[A fábula mostra] Que a pessoa não deve se despir de uma condição estável, fiando-se em juramentos de inimigos irreconciliáveis.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 349

Esopo 245

A macaca e seus filhotes

Dizem que as macacas geram dois filhotes e que a um deles dão afeto e criam com dedicação, ao passo que rejeitam o outro e não cuidam dele. Acontece que, por uma fatalidade divina, aquele que é tratado com afeto morre, enquanto o outro, o rejeitado, desenvolve-se bem.

A fábula mostra que a fatalidade é mais poderosa que qualquer previdência.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 353

Esopo 246

O macaco e a camela dançarinos

Numa reunião de animais irracionais, um macaco se levantou e se pôs a dançar. E, como estava agradando e todos apontavam para ele, uma camela ficou enciumada e quis alcançar o mesmo sucesso. Então, levantou-se e tentou dançar também. Mas, como ela executava movimentos extravagantes, os animais perderam a paciência e a expulsaram a porretadas.

A fábula é oportuna para os invejosos que rivalizam com os superiores e, por conseguinte, se dão mal.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 354

Esopo 247

O macaco e os pescadores

Um macaco, empoleirado no alto de uma árvore, avistou pescadores à beira do rio lançando a rede e ficou observando o que é que eles faziam. E assim, quando eles recolheram a rede e se afastaram dali para comer os peixes, o macaco desceu da árvore e tentou lançar a rede, pois dizem que esse animal é imitador. Ao manejar as redes, porém, ficou preso. Então ele disse para si: “Mas é bem-feito para mim! Por que é que eu, que não sei pescar, me meti a fazer isso?”.

A fábula mostra que pôr-se a fazer coisas que não convém é não só inútil como também danoso.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 355

Esopo 248

O macaco eleito rei e a raposa

Numa assembleia de animais irracionais, um macaco teve bom acolhimento e foi eleito rei por aclamação. Uma raposa, porém, sentiu inveja e, quando viu uma porção de carne deixada numa armadilha, levou o macaco até lá, alegando que havia encontrado um tesouro, do qual ela própria não fizera questão, mas o havia preservado para ele, como presente régio, e exortou-o a pegá-lo. O macaco, despreocupadamente, se aproximou e foi apanhado pela armadilha. E, depois, ficou acusando a raposa de ter-lhe preparado uma cilada. Ela respondeu: “Pois você, macaco, que é tão ingênuo assim, é o rei dos animais?”.

Assim, aqueles que empreendem tarefas irrefletidamente, além de fracassarem, são alvos de zombaria.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 356

Esopo 249

O mandão e os marinheiros

Certa vez um mandão fazia uma viagem de navio, debaixo de uma tempestade, e, enfastiado, disse para os marinheiros, que estavam remando sem muito vigor por causa da tormenta: “Ô, marinheiros, se não conduzirem mais depressa o navio, vou acabar com vocês a pedradas!”. Então um deles retrucou: “Quem dera estivéssemos num lugar onde fosse possível recolher pedras!”.

Portanto, nós igualmente devemos suportar, em relação às nossas vidas, os danos mais leves, para escaparmos dos mais pesados.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 357

Esopo 250

O marido e a esposa intratável

Um homem que tinha uma esposa por demais intratável para com os servos domésticos quis saber se com os criados da casa paterna ela se comportava do mesmo modo. Então, arrumou um bom pretexto e despachou-a para a casa do pai. Após alguns dias ela retornou e ele quis saber como é que os servos a tinham recebido. “Os vaqueiros e os pastores me olhavam torto”, respondeu ela. O homem respondeu: “Mas se você, mulher, se dava mal com eles, que levam os animais ao pasto de manhãzinha e só voltam ao anoitecer, o que se deve esperar quando se trata daqueles com quem você convivia o dia todo?”.

Assim, muitas vezes, a partir das pequenas coisas se deduzem as grandes, e das evidentes, as ocultas.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 358

Esopo 251

O médico incompetente

Um médico incompetente acompanhava um enfermo e, enquanto os outros médicos diziam ao doente que ele não corria perigo e que apenas ia continuar com a doença por um longo tempo, ele foi o único a recomendar ao paciente que fizesse seus preparativos, “pois de amanhã você não passa”. Disse isso e retirou-se. Depois de um certo tempo, o doente se levantou e saiu, mesmo pálido e caminhando com dificuldade. O médico, ao topar com ele, disse: “Salve! Como vão os moradores das regiões infernais?”. E o outro respondeu: “Estão serenos, pois beberam da água do rio do Esquecimento. Mas, não faz muito tempo, a Morte e o deus Hades estavam planejando castigos terríveis a todos os médicos, porque eles não deixam morrer os doentes, e estavam anotando os nomes de todos eles. Iam registrar até o seu nome, mas eu me prostrei em súplica diante deles e jurei que você não era médico de verdade e que tinha sido incriminado sem razão”.

A presente fábula põe em tela os médicos despreparados, ignorantes e de conversa elaborada.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 359