Esopo 94

O cavalo e o cocheiro

Um cocheiro roubava a cevada do cavalo para vender, e depois passava o dia todo a esfregá-lo e alisá-lo. Então o cavalo disse: “Se você quer de verdade que eu fique bonito, não venda a cevada que me alimenta”.

[A fábula mostra] Que os ambiciosos, quando fisgam os pobres com lisonjas e palavras persuasivas, retiram deles até o essencial.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 150

Esopo 95

O cavalo e o soldado

Era um tempo de guerra e um soldado alimentava seu cavalo com cevada, por julgá-lo um colaborador nas emergências. No entanto, quando a guerra acabou, o cavalo passou a cuidar de tarefas servis e de pesados fardos, e a ser alimentado apenas com palha. Mas, quando se ouviu de novo falar em guerra e a trombeta começou a soar, o dono pôs arreios no cavalo e montou nele com seus armamentos. Ele, porém, arriava a todo momento, sem forças para nada. Foi então que disse ao dono: “Agora trate de partir com os soldados da infantaria, os hoplitas, pois você me transformou, de cavalo que eu era, em burro. E como quer reaver, de um burro, um cavalo?”.

[A fábula mostra] Que, em tempos de segurança e tranquilidade, não se deve perder de vista os tempos de infortúnios.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 151

Esopo 96

O cavalo velho

Um cavalo velho foi vendido para tocar uma moenda. Atrelado ao moinho, ele disse, gemendo: “Em que pista eu vim parar, depois de todas as minhas gloriosas corridas!”.

[A fábula mostra] Que uma pessoa não deve se ufanar demais de seu vigor físico e da fama, pois para muitos a velhice é consumida em padecimentos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 152

Esopo 97

O Ciclope

Um homem devoto e, decerto, orgulhoso de seus deveres religiosos, levou por um bom tempo uma vida cômoda em companhia dos filhos, mas depois deparou com uma pobreza extrema. Mortalmente transtornado na alma, pôs-se a blasfemar contra a divindade e, vendo-se impelido ao suicídio, pegou uma espada e saiu em busca de algum local ermo, pois preferia morrer a viver em condições aviltantes. No caminho, encontrou por acaso um fosso bem fundo e, dentro dele, uma quantia de ouro – e não era pouco! – que havia sido armazenada por um homem gigantesco, chamado Ciclope. Ao avistar o ouro, o homem retomou sua devoção e, cheio de medo misturado com alegria, jogou fora a espada, retirou o ouro de lá e retornou feliz para casa e para os filhos. Mais tarde, o Ciclope foi até o fosso e não encontrou o ouro, mas viu deixada no lugar dele a espada. Imediatamente tirou-a da bainha e deu cabo da própria vida.

Essa fábula mostra que as desgraças ocorrem, inevitavelmente, para os homens sinistros, mas para os bons e devotos são reservados os bens.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 153

Esopo 98

A cigarra e as formigas

Era inverno e as formigas estavam secando o trigo encharcado, quando uma cigarra faminta lhes pediu alimento. As formigas lhe disseram: “Por que, no verão, você também não recolheu alimento?”. E ela: “Mas eu não fiquei à toa! Ao contrário, eu cantava canções melodiosas!”. Elas tornaram, a rir: “Mas se você flauteava no verão, dance no inverno!”.

A fábula mostra que não devemos descuidar de nenhuma tarefa, para não padecer aflições nem correr riscos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 154

Esopo 99

A cigarra e a raposa

Uma cigarra estava cantando no alto de uma árvore, quando uma raposa, ávida por comê-la, arquitetou o seguinte: parada diante da cigarra, ficou admirando sua bela voz e incentivando-a a descer, dizendo que queria ver de que tamanho era o animal que emitia um som tão alto. Suspeitando da armadilha, a cigarra arrancou uma folha e deixou-a cair. A raposa correu para a folha, pensando que fosse a cigarra. Esta, então, lhe disse: “Mas você se enganou, minha cara, se achava que eu iria descer. É que eu fico esperta com vocês, desde o dia em que avistei asas de cigarras nos excrementos de uma raposa”.

[A fábula mostra] Que para os homens prudentes as desgraças do próximo são instrutivas.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 155

Esopo 100

O cisne e o dono

Dizem que os cisnes cantam na hora de morrer. Foi então que uma pessoa encontrou casualmente um cisne à venda e comprou-o, pois tinha ouvido dizer que era uma ave muito melodiosa. Certa vez, quando recepcionava convivas, aproximou-se do cisne e pediu-lhe que cantasse enquanto eles bebiam. Nessa ocasião, porém, o cisne ficou em silêncio e só foi entoar seus prantos muito depois, quando percebeu que ia morrer. Ao ouvi-lo, o dono disse: “Mas se não há meio de um cisne cantar a não ser que esteja para morrer, então eu é que fui bobo na hora em que lhe fiz um pedido, em vez de ter matado você”.

Assim, alguns homens fazem por mal o que por bem não querem aceitar.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 157

Esopo 101

O cisne levado em lugar do ganso

Fábula do ganso e do cisne, a qual estimula os jovens a refletir.

Um homem abastado resolveu criar um ganso junto com um cisne, visando a fins diferentes: havia comprado um para cantar e o outro para levar à mesa. Mas já era noite quando o ganso precisava morrer pelos propósitos para os quais estava sendo criado, e o momento não ajudava o dono a distinguir um do outro. O cisne é levado em lugar do ganso, mas com um canto ele revela sua natureza e escapa da morte.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 158

Esopo 102

O citarista

Um citarista inepto estava cantando numa casa de paredes bem revestidas. Como sua voz ecoava, ele julgou que ela era bem melodiosa e concluiu, envaidecido, que precisava exibir-se no teatro. Quando, porém, entrou no palco, cantou muito mal e foi enxotado a pedradas.

Assim, também, certos oradores, que nas escolas se acham os tais, descobrem que não têm nenhum mérito quando enfrentam a vida pública.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 159

Esopo 103

A cobra e o caranguejo

Uma cobra e um caranguejo habitavam o mesmo lugar. Mas, enquanto ele se relacionava com a cobra de modo franco e bondoso, ela era sempre tortuosa e perversa. O caranguejo vivia incentivando a cobra a imitar seu comportamento e tratá-lo com retidão, mas ela não se deixava persuadir. Por isso, o caranguejo perdeu a paciência e, ao espreitá-la a dormir, deu um bote no pescoço e matou-a. E disse, ao vê-la estirada: “Não é agora depois de morta, minha cara, que você deve ficar reta, mas sim quando eu a incentivava e você não dava atenção!”.

Esta fábula pode ser propósito daqueles dita, com razão, a homens que em vida são perversos para com amigos, mas, depois de mortos, prestam benefícios a eles.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 160