Fedro 5.5

O bufão e o camponês

Os mortais costumam enganar-se por uma perversa parcialidade

e, enquanto insistem na opinião baseada em seu próprio erro,

evidenciados os fatos, são levados a se arrepender.

Um nobre rico, prestes a realizar jogos,

proposto um prêmio, convidou a todos 5

para que cada um mostrasse a novidade que pudesse.

Vieram artistas para a disputa da glória;

entre eles um bufão, conhecido por seu fino humor,

que disse ter um tipo de espetáculo

que nunca tinha sido apresentado no teatro. 10

O rumor se espalha e excita a cidade.

Os lugares, pouco antes vazios, faltam à multidão.

Mas depois que se postou no palco

sem aparato, sem nenhum ajudante,

a própria expectativa fez silêncio. 15

De repente ele enfiou a cabeça na prega da veste

e de tal modo imitou a voz do porquinho com a sua,

que afirmavam que havia um de verdade sob o manto

e ordenavam que fosse sacudido. Feito isso, assim que

nada foi encontrado, o acumulam de muitos louvores 20

e acompanham o homem com o maior aplauso.

Um camponês viu isso acontecer: “Por hércules, não

me vencerá”, diz, e imediatamente prometeu

que no dia seguinte faria a mesma coisa melhor.

A multidão se fez maior. Já a parcialidade ocupa as mentes 25

e elas se sentam com intuito de ridicularizar, não de assistir.

Ambos se apresentam. O bufão grunhe primeiro

e move aplausos e provoca clamores.

Então o camponês, fingindo que encobria

um porquinho nas vestimentas (o que realmente fazia, 30

mas despercebido, visto não terem achado nada no primeiro),

puxa a orelha do verdadeiro, que ele tinha escondido,

e com a dor solta a voz da natureza.

O povo proclama que o bufão com muito mais semelhança

 imitou e força o camponês a ser posto para fora. 35

Mas ele tira o próprio porquinho das dobras,

demonstrando o vergonhoso erro com uma prova clara:

“Eis que este declara que espécie de juízes vós sois!”

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 3.2

A pantera e os pastores

O mesmo favor costuma ser devolvido pelos menosprezados.

Certa vez uma pantera distraída caiu num buraco.

Os camponeses a viram; uns a espancam com bastões,

outros tacam pedras; alguns, ao contrário, compadecidos

dela que certamente morreria mesmo que ninguém a ferisse, 5

atiraram um pão para que ela mantivesse a respiração.

Sobreveio a noite; voltam para casa seguros

de que, no dia seguinte, eles iriam encontrá-la morta.

Mas ela, assim que refez suas debilitadas forças,

livra-se do buraco com um ágil salto 10

e com rápido passo apressa-se para sua toca.

Passados uns poucos dias, sai voando,

trucida o gado, mata os próprios pastores

e, devastando tudo, investe furiosa num ataque raivoso.

Então, temendo por si os que tinham poupado a fera 15

não reclamam do prejuízo, rogam somente por sua vida.

Mas ela: “Eu lembro quem me atacou com pedra,

quem me deu pão; vós, deixai de ter medo;

volto como inimiga daqueles que me feriram.”

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 3.3

Esopo e o camponês

Disse vulgarmente que o homem experiente é mais verdadeiro

do que um adivinho; mas não se diz o motivo;

minha fabulazinha mostrará isso agora pela primeira vez.

Para um sujeito que tinha rebanhos as ovelhas pariram

cordeiros com cabeça humana. Aterrorizado pelo prodígio, 5

ele correu aflito para consultar os adivinhos.

Um responde que tem a ver com a cabeça do dono

e que ele deve afastar o perigo com uma vítima.

Outro, porém, afirma que sua esposa é adultera

e o fato significa que seus filhos são ilegítimos, 10

mas que pode ser expiado com uma vítima maior.

Para que muitas palavras? Eles divergem com variadas opiniões

e agravam a preocupação do homem com preocupação maior.

Esopo, um velho de nariz limpo a quem

a natureza nunca pôde enganar, estando ali, 15

diz: “Se queres afastar o prodígio, camponês,

dá esposas aos teus pastores”.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 2.8

O cervo junto aos bois

Um cervo, enxotado de seus esconderijos no bosque,

para fugir da iminente morte por caçadores,

dirigiu-se em seu cego medo a uma chácara próxima

e se refugiou em um oportuno curral.

Aí um boi diz ao que se escondia: “O que quiseste para ti, 5

infeliz, tu, que correste espontaneamente para a morte

e confiaste tua vida ao teto dos homens?”

Mas ele suplicante: “Vós”, diz, “poupai-me apenas;

dada a ocasião, sairei novamente”.

A vez da noite toma o lugar do dia. 10

O vaqueiro traz a forragem, e nada vê.

Vão e vêm, em seguida, todos os camponeses,

ninguém nota; passa também o caseiro,

nem ele percebe coisa alguma. Então o animal, alegrando-se,

começou a agradecer os bois silenciosos, 15

por terem prestado hospitalidade num momento adverso.

Respondeu um: “Na verdade te desejamos salvo,

mas se vier aquele que tem cem olhos,

tua vida estará em grande perigo”.

Nisso, o próprio dono volta do jantar 20

e, como tinha visto há pouco que os bois estavam emagrecendo,

aproxima-se do estábulo: “Por que há pouca forragem,

Faltam palhas? Que trabalhão é tirar

essas teias de aranha?” Enquanto examina cada coisa,

vê também os altos chifres do cervo; 25

convocada a criadagem, ordena que seja morto

e leva a presa. Esta fábula quer dizer

que o dono vê muito mais em seus negócios.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.