Esopo 180

O hortelão e o cão

O cão de um hortelão caiu num poço. E o hortelão decidiu retirá-lo de lá e desceu no poço atrás dele. E o cão, que já estava em apuros, ao ver o hortelão chegando perto dele, presumiu que ia ser empurrado para o fundo da água e, então, lascou-lhe uma mordida. E o hortelão, maltratado, disse: “Mas é benfeito para mim. Por que é que tentei afastar você do perigo, se foi você mesmo que se lançou no abismo?”.

Para homem ingrato e que age mal com os benfeitores.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 266

Esopo 182

As idades do homem

Quando Zeus fez o homem, deu a ele uma vida breve. Mas o homem usou seu conhecimento e, quando estava próximo o inverno, fabricou para si uma casa e lá ficou vivendo. E, certa vez, quando fez um frio rigoroso e Zeus fez chover, o cavalo não pôde resistir e foi correndo à casa do homem pedir-lhe abrigo. O homem disse que só o atenderia se ele lhe cedesse uma parte de seus anos de vida. O cavalo, então, cedeu-a de bom grado. Não muito tempo depois, apareceu também o boi, pois nem ele estava podendo suportar a borrasca. Do mesmo modo, o homem disse que o acolheria se ele primeiro lhe entregasse um certo número de seus anos de vida. O boi, então, deu uma parte e foi acolhido. Por último chegou o cão, morrendo de frio, e, tendo partilhado também uma porção de seu tempo de vida, conseguiu abrigo. O resultado disso é que os homens, quando estão no tempo concedido por Zeus, são puros e bons, mas quando vivem os anos do cavalo são fanfarrões e empertigados; quando chegam aos anos do boi, tornam-se dominadores; e quando completam o tempo do cão ficam irascíveis e resmungões.

Uma pessoa poderia usar esta fábula para um velho irascível e intratável.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 271-272

Esopo 197

O lavrador e os cães

Um lavrador ficou detido no estábulo por causa de uma tempestade e, sem poder sair para arranjar alimento, comeu primeiro os cordeiros. E, como a tempestade ainda persistisse, num segundo momento devorou também as cabras. E, como não ocorresse nenhuma estiada, numa terceira vez avançou sobre os bois de arado também. Então os cães, que observavam os acontecimentos, disseram entre si: “Precisamos dar o fora daqui, pois se o patrão não se absteve nem mesmo dos bois, seus colaboradores, como é que vai nos poupar?”.

A fábula ensina que é preciso ter muita cautela com as pessoas que tratam injustamente seus conhecidos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 292

Esopo 231

O lobo e o cão

Ao ver um cão enorme preso na coleira, um lobo perguntou: “Quem foi que prendeu você e lhe deu tanta comida?”. E o cão: “Um caçador”. E o lobo: “Tomara que não aconteça uma coisa dessas com um lobo que é amigo meu! A fome é mais leve que a coleira!”.

A fábula mostra que, nas desventuras, nem o estômago sente prazer.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 334

Esopo 241

Lobos e cães reconciliados

[A fábula mostra] Que aqueles que traem a pátria recebem esse tipo de pagamento.

Os lobos disseram aos cães: “Por que vocês, que são iguais a nós em tudo, não se põem de acordo conosco, feito irmãos? Não há entre nós nenhuma diferença, exceto quanto ao modo de pensar. E nós, os lobos, vivemos juntos em liberdade, enquanto vocês se curvam, subservientes, aos homens, tomando bordoadas, usando coleiras e vigiando os cordeiros. Mas, quando eles fazem as refeições, dão para vocês somente os ossos! Ora, se confiarem em nós e nos entregarem os rebanhos todos, teremos tudo em comum para comermos à farta”. Os cães deram crédito a tais propostas e os lobos, assim que entraram no aprisco, a primeira coisa que fizeram foi dizimar os cães.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 346

Esopo 242

Lobos e cães em guerra

Certa vez, quando os lobos e os cães estavam em pé de guerra, um cão grego, eleito o general dos caninos, tentava adiar o combate, ao passo que os lobos faziam ameaças terríveis. Então o cão disse aos lobos: “Sabem por que razão eu vou com calma? É porque preciso deliberar com cautela. Vocês pertencem a uma só raça e são todos de uma só cor, enquanto nós temos hábitos diversos e nos ufanamos de nossas terras. Além disso, nossa cor não é uma mesma e única; ao contrário, uns são pretos, outros, avermelhados, e outros, ainda, brancos e cinzentos. E como posso conduzi-los à guerra se eles são tão discordantes e desiguais em tudo?”.

[A fábula mostra] Que, quando há consenso na deliberação e no pensamento, todas as expedições alcançam vitória sobre as adversidades.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 347

Esopo 290

O pastor e o cão

Um pastor tinha o costume de deixar para seu cão, que era enorme, as ovelhas natimortas e as moribundas. Mas eis que um dia, quando o rebanho já havia entrado no redil, o pastor notou que o cão se aproximava das ovelhas fazendo festa para elas. Então o pastor lhe disse: “Ei, meu caro, tomara que reverta sobre sua cabeça o que você está querendo com elas!”.

Para homem adulador a fábula é oportuna.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 412

Esopo 292

O pastor e o lobo criado com os cães

Ao encontrar um filhote de lobo recém-nascido, um pastor o recolheu, levando-o para crescer em companhia de seus cães. O filhote, depois de crescido, saía junto com os cães no encalço de qualquer lobo que tivesse roubado uma ovelha. Mas, quando os cães não conseguiam agarrar o lobo e por isso recuavam, o filhote crescido, ao contrário, prosseguia até agarrá-lo e compartilhar da caça, pois, afinal, também era lobo. Só depois é que voltava. E, se nenhum lobo de fora roubasse uma ovelha, ele próprio às escondidas sacrificava uma e a devorava em companhia dos cães. Foi assim até que o pastor, desconfiado, ao compreender o que se passava, pendurou o lobo numa árvore e o matou.

A fábula mostra que de uma natureza malvada não se forma um caráter honesto.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 414

Esopo 294

O pastor [que levava um lobo ao aprisco] e o cão

Um pastor levava as ovelhas ao aprisco e, com elas, um lobo. Ia trancá-los juntos, não fosse o cão, notando o perigo, alertá-lo: “Como você quer proteger suas ovelhas, pondo para dentro um lobo com o rebanho?”.

[A fábula mostra] Que o convívio com os malvados é capaz de causar danos enormes e contribuir para a morte.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 417

Esopo 332

A raposa que afagava um cordeirinho e o cão

Uma raposa se meteu num rebanho de ovelhas, agarrou um cordeirinho e começou a fingir que o acarinhava. “Por que você está fazendo isso?”, perguntou-lhe um cão. E ela: “Estou lhe fazendo carinho e brincando com ele!”. E o cão: “Mas agora mesmo eu vou fazer carícias de cão em você, se não deixar em paz o cordeirinho!”.

Para homem inescrupuloso e ladrão imbecil a fábula é oportuna.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 470