Bábrio 2.140

A cigarra e a formiga

No inverno uma formiga arrastava de dentro da toca

o trigo para arejar, que ela havia estocado no verão.

Então uma cigarra faminta pôs-se a suplicar-lhe

que lhe desse algum alimento, para continuar viva.

“Ora, o que estiveste fazendo”, disse, “nesse verão?” 5

“Não estive à toa. Ao contrário, passei o tempo todo a cantar.”

A rir a formiga vai guardando no interior o trigo

e diz: “Se flauteaste no verão, dança no inverno!”

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Fedro 3.16

A cigarra e a coruja

Quem não se ajusta à boa convivência

sofre muitas vezes as punições da soberba.

Uma cigarra fazia um estridente barulho

a uma coruja acostumada a procurar alimento nas trevas

e a pegar no sono durante o dia no oco de um galho. 5

Foi solicitada a que se calasse. Mais fortemente

começou a gritar. Novamente instada com seu rogo,

inflamou-se ainda mais. A coruja, quando viu que para si

nenhum socorro havia e menosprezadas suas palavras,

dirigiu-se à gritona com este ardil: 10

“Porque não me deixam dormir os teus cantos,

que julgarias que é a cítara de Apolo que soam,

tenho a intenção de beber este néctar, que Palas me

presenteou há pouco; se não tens fastio, vem;

bebamos juntas”. Aquela, que ardia de sede, 15

ao mesmo tempo que se inteirava de que sua voz era louvada,

voou avidamente. A coruja, saindo de sua toca,

perseguiu a temerosa e lhe deu a morte.

Assim, morta, concedeu o que tinha negado viva.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Esopo 37

O burro e as cigarras

Ao ouvir cigarras a cantar, um burro ficou deleitado com tão melodiosa voz e perguntou-lhes, com inveja, de que elas se alimentavam para emitir uma voz como aquela. “Orvalho”, responderam elas. Ele ficou esperando o orvalho e morreu de fome.

Assim, também, os que têm aspirações contrárias à natureza, além de não realizá-las, ainda padecem enormes desgraças.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 79

Esopo 58

O caçador de passarinhos e a cigarra

Fábula do caçador de passarinhos, a qual exorta a não se atentar nas palavras, mas nos fatos.

Ao ouvir uma cigarra, um caçador de passarinhos achou que iria caçar uma grande presa e foi se aproximando, enquanto calculava, pela altura do canto, o tamanho da caça. Mas, quando manobrou a visgueira e apanhou a caça, teve em mãos um canto, nada mais que isso. E depois ficou recriminando a presunção, que leva muitos homens a formular falsos julgamentos.

Assim, as pessoas insignificantes tentam parecer bem mais do que são de fato.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 109

Esopo 98

A cigarra e as formigas

Era inverno e as formigas estavam secando o trigo encharcado, quando uma cigarra faminta lhes pediu alimento. As formigas lhe disseram: “Por que, no verão, você também não recolheu alimento?”. E ela: “Mas eu não fiquei à toa! Ao contrário, eu cantava canções melodiosas!”. Elas tornaram, a rir: “Mas se você flauteava no verão, dance no inverno!”.

A fábula mostra que não devemos descuidar de nenhuma tarefa, para não padecer aflições nem correr riscos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 154

Esopo 99

A cigarra e a raposa

Uma cigarra estava cantando no alto de uma árvore, quando uma raposa, ávida por comê-la, arquitetou o seguinte: parada diante da cigarra, ficou admirando sua bela voz e incentivando-a a descer, dizendo que queria ver de que tamanho era o animal que emitia um som tão alto. Suspeitando da armadilha, a cigarra arrancou uma folha e deixou-a cair. A raposa correu para a folha, pensando que fosse a cigarra. Esta, então, lhe disse: “Mas você se enganou, minha cara, se achava que eu iria descer. É que eu fico esperta com vocês, desde o dia em que avistei asas de cigarras nos excrementos de uma raposa”.

[A fábula mostra] Que para os homens prudentes as desgraças do próximo são instrutivas.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 155

Esopo 195

O lavrador e o arbusto

[A fábula mostra] Que, por natureza, os homens não amam e honram tanto a justiça, como se animam a perseguir o lucro.

Nas terras de um lavrador havia um arbusto que não produzia frutos e só servia de abrigo a pardais e cigarras estridentes. Como não dava frutos, o lavrador ia cortá-lo. E, assim que pegou o machado e desferiu o golpe, as cigarras e os pardais puseram-se a suplicar-lhe que não abatesse o refúgio deles, mas que o deixasse, para que nele cantassem, proporcionando alegrias a você, lavrador! Mas este, sem a menor preocupação, desferiu um segundo golpe, e ainda um terceiro. Ao esburacar o arbusto, encontrou um enxame de abelhas e mel. E, depois de saboreá-lo, jogou fora o machado e honrou a planta como coisa sagrada, passando a cuidar dela.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 290