Bábrio 2.140

A cigarra e a formiga

No inverno uma formiga arrastava de dentro da toca

o trigo para arejar, que ela havia estocado no verão.

Então uma cigarra faminta pôs-se a suplicar-lhe

que lhe desse algum alimento, para continuar viva.

“Ora, o que estiveste fazendo”, disse, “nesse verão?” 5

“Não estive à toa. Ao contrário, passei o tempo todo a cantar.”

A rir a formiga vai guardando no interior o trigo

e diz: “Se flauteaste no verão, dança no inverno!”

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Fedro 4.25

A formiga e a mosca

[A fabulazinha recomenda a não fazer nada que não seja útil.]

Uma formiga e uma mosca disputavam acaloradamente

quem era mais importante. A mosca começou primeiro assim:

“Tu podes comparar-te com as minhas glórias?

Moro entre os altares, percorro todos os templos; 5

quando se imola, provo antes as vísceras dos deuses;

sento na cabeça do rei quando acho bom,

e toco de leve os castos lábios das matronas;

não trabalho em nada e desfruto das melhores coisas.

O que semelhante a isso acontece para ti, rústica?” 10

“É glorioso, sem dúvida, o banquete dos deuses,

mas para quem é convidado, não para quem é odiado.

Frequentas os altares? Na certa és enxotada quando chegas.

Mencionas os reis e os lábios das matronas;

Ainda por cima te gabas de coisa que o pudor deve ocultar. 15

Não trabalhas em nada, por isso, quando necessário, nada tens.

Enquanto aplicadamente eu amontoo o grão para o inverno,

te vejo alimentar-te no esterco ao redor do muro;

quando os frios te obrigam a morrer enrijecida,

a mim me acolhe sã e salva uma casa bem provida. 20

Me importunas no verão; quando é inverno, ficas em silêncio.

Sem dúvida, rebati bem a tua soberba”.

Tal fabulazinha distingue as características dos homens,

daqueles que se adornam com falsos louvores

e daqueles cuja virtude exibe uma sólida honra. 25

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Esopo 98

A cigarra e as formigas

Era inverno e as formigas estavam secando o trigo encharcado, quando uma cigarra faminta lhes pediu alimento. As formigas lhe disseram: “Por que, no verão, você também não recolheu alimento?”. E ela: “Mas eu não fiquei à toa! Ao contrário, eu cantava canções melodiosas!”. Elas tornaram, a rir: “Mas se você flauteava no verão, dance no inverno!”.

A fábula mostra que não devemos descuidar de nenhuma tarefa, para não padecer aflições nem correr riscos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 154

Esopo 130

A formiga

A formiga de hoje era, antigamente, um ser humano que se dedicava à lavoura, mas que não se contentava com o que produzia e, sempre de olho na produção alheia, vivia surripiando a colheita dos vizinhos. Então, Zeus se irritou com sua ganância e o transformou nesse animal chamado formiga. Mas, mesmo lhe alterando a forma, não mudou seu comportamento, pois até hoje ele percorre as plantações, recolhe a cevada e o trigo dos outros e os armazena para si.

A fábula mostra que os perversos por natureza, ainda que recebam uma excelente punição, não mudam de caráter.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 197

Esopo 131

A formiga e a pomba

Uma formiga sedenta desceu a uma fonte para beber, mas começou a afogar-se. Então, uma pomba, pousada numa árvore ao lado, arrancou um galhinho e lançou-o na água. A formiga subiu nele e salvou-se. Mais tarde, um caçador de passarinhos parou ali e, no desejo de apanhar a pomba, montou seus caniços com visgo. Então a formiga veio e deu uma mordida no pé do caçador. Ele se desequilibrou, sacudiu os caniços e, como resultado, a pomba fugiu e se salvou.

Também os pequenos gestos podem trazer grandes retornos aos benfeitores.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 199

Esopo 132

A formiga e o escaravelho

Era verão e uma formiga percorria os campos colhendo grãos de trigo e de cevada, que armazenava como provisão para o inverno. Então um escaravelho ficou espantado ao ver que ela se excedia no trabalho, pois se estafava numa época em que os outros animais se desobrigavam de tarefas e ficavam na boa vida. Ela, nesse momento, nem se abalou. No entanto mais tarde, quando chegou o inverno e o esterco foi se desmanchando com a chuva, o escaravelho, faminto, foi atrás dela esmolar comida. Ela, então, lhe disse: “Mas se você, escaravelho, tivesse trabalhado naquela época, quando eu me estafava e você me criticava, agora não teria precisão de comida!”.

Assim, aqueles que em tempo de fartura não se preocupam com o futuro padecem graves sofrimentos quando a situação muda.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 200

Esopo 173

O homem mordido por uma formiga e Hermes

Ao avistar certa vez um barco naufragando com passageiros, um homem começou a dizer que os deuses eram injustos, pois, por causa de uma única pessoa ímpia, também inocentes pereciam. E, como estava dizendo isso enquanto se encontrava parado num lugar onde havia muitas formigas, aconteceu que acabou sendo mordido por uma delas. Mas, apesar de ter sido mordido por uma única formiga, pisoteou todas de uma só vez. Então, Hermes se aproximou e, tocando-o com o caduceu, lhe disse: “E depois você não aceita que os deuses exerçam a justiça com o mesmo critério que você usou para as formigas?”.

[A fábula mostra] Que, quando acontece uma desgraça, a pessoa não deve blasfemar contra um deus, mas deve, antes, observar os próprios erros.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 255