Esopo 311

A pulga e o atleta

Certa vez uma pulga, num salto, pousou no dedo do pé de um atleta que se exibia num desfile. Saltitante, a pulga sapecou-lhe uma mordida. O atleta se enfureceu e preparou as unhas, pronto para esmagar a pulga, quando ela, num impulso, deu o salto costumeiro e desapareceu, escapando da morte. Ele, então, se lamentou, dizendo: “Ó Héracles, se a coisa é assim contra uma pulga, que amparo terei de você contra meus adversários?”.

Pois é. Portanto, a fábula nos ensina que não devemos de pronto invocar os deuses nas questões insignificantes e inofensivas, mas só nas emergências.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 435

Esopo 312

A pulga e o boi

Certa vez uma pulga perguntou ao boi: “Por que sofrer dia após dia como servo dos homens, se você é assim tão corpulento e corajoso? Ao contrário de você, eu dilacero o corpo humano sem dó e bebo com avidez seu sangue”. E o boi respondeu: “Não sou ingrato à raça humana, pois deles recebo estima e agrados fora do comum, e constantemente eles me afagam a testa e o dorso”. E ela: “Mas esse afago que você acha gostoso se torna deplorável para uma desgraçada como eu, quando calha de eles me apertarem!”.

[A fábula mostra] Que os que dizem gabolices são refutados até pelos simples.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 436

Esopo 313

A pulga e o homem

Certa vez uma pulga molestava um homem, mas eis que ele a apanha e lhe diz aos berros: “Quem é você, que me consome os membros todos, dando-me picadas a torto e a direito?”. Ela grita: “É a nossa vida, não me mate. Pois um grande mal não sou capaz de fazer”. E, rindo, o homem lhe disse em resposta: “Já, já você estará morta entre meus dedos, pois todo mal, seja ele grande ou pequeno, não convém jamais que vire realidade”.

A fábula mostra que o homem mau não merece piedade, ainda que ele seja grande ou pequeno.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 437