Esopo 312

A pulga e o boi

Certa vez uma pulga perguntou ao boi: “Por que sofrer dia após dia como servo dos homens, se você é assim tão corpulento e corajoso? Ao contrário de você, eu dilacero o corpo humano sem dó e bebo com avidez seu sangue”. E o boi respondeu: “Não sou ingrato à raça humana, pois deles recebo estima e agrados fora do comum, e constantemente eles me afagam a testa e o dorso”. E ela: “Mas esse afago que você acha gostoso se torna deplorável para uma desgraçada como eu, quando calha de eles me apertarem!”.

[A fábula mostra] Que os que dizem gabolices são refutados até pelos simples.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 436

Esopo 313

A pulga e o homem

Certa vez uma pulga molestava um homem, mas eis que ele a apanha e lhe diz aos berros: “Quem é você, que me consome os membros todos, dando-me picadas a torto e a direito?”. Ela grita: “É a nossa vida, não me mate. Pois um grande mal não sou capaz de fazer”. E, rindo, o homem lhe disse em resposta: “Já, já você estará morta entre meus dedos, pois todo mal, seja ele grande ou pequeno, não convém jamais que vire realidade”.

A fábula mostra que o homem mau não merece piedade, ainda que ele seja grande ou pequeno.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 437

Esopo 314

A rã médica e a raposa

Certa vez, havia num brejo uma rã que gritava para todos os animais: “Eu sou médica, especialista em todos os tipos de remédios!”. Ao ouvi-la, disse uma raposa: “Se você, que manquitola, não cura sua própria deficiência, como é que vai salvar os outros?”.

A fábula mostra que, se alguém é leigo em educação, como poderá educar os demais?

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 441

Esopo 315

As rãs que pediam um rei

Chateadas por viverem sem governo, as rãs enviaram a Zeus embaixadores pedindo que lhes desse um rei. E o deus, vendo como elas eram ingênuas, lançou no brejo um pedaço de pau. De imediato, as rãs, sobressaltadas com o barulho, se mandaram para o fundo do brejo. Mas depois, como o pau não se mexia, elas voltaram à tona e chegaram a tal ponto de descaso que trepavam nele e lá ficavam empoleiradas. Decepcionadas com um rei como aquele, as rãs foram a Zeus uma segunda vez para pedir que lhes trocasse o governante, pois aquele primeiro era muito bonachão. Foi aí que Zeus perdeu a paciência e lhes mandou uma cobra-d’água, que agarrou e devorou todas elas.

A fábula mostra que é melhor ter chefes indolentes e sem maldade do que chefes turbulentos e maldosos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 443

Esopo 316

As rãs que procuravam água

No verão, quando o brejo secou, duas rãs que nele viviam saíram à procura de outro. Quando encontraram um poço fundo, uma propôs à outra que saltassem nele. Esta respondeu: “Mas se este poço também secar, como vamos sair?”.

A fábula mostra que não devemos nos lançar irrefletidamente às tarefas.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 446

Esopo 317

As rãs vizinhas

Duas rãs moravam vizinhas, uma num brejo fundo e afastado da estrada, a outra numa pequena poça no meio da passagem. E a que morava no brejo estimulava a outra a mudar-se para junto dela, pois desfrutaria de uma vida melhor e mais segura. Mas aquela não se deixava convencer, dizendo que não era fácil deixar o lugar de hábito. Até que, um dia, uma carroça passou ali e a esmagou.

Assim, também, os homens que se prendem a ocupações mesquinhas perecem logo, antes mesmo de se voltarem para ocupações mais nobres.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 447

Esopo 318

O rapazote e a velha

Um rapazote ia por um caminho num dia de calor ardente e encontrou por acaso uma velhota, que foi seguindo pelo mesmo caminho em companhia dele. De repente, a velhota desmaiou por conta do calor ardente e da fadiga da caminhada. O rapaz, condoído de sua fragilidade, pois ela estava sem forças para prosseguir, ergueu-a do chão e pôs-se a carregá-la nos ombros. Enquanto a levava, sentiu-se terrivelmente perturbado com certos pensamentos indecentes, nutridos pelo furor da libertinagem e do intenso desejo, que lhe puseram o falo a prumo. Imediatamente ele depôs a velhota no chão e começou a fazer com ela um ato libidinoso. Ela, então, perguntou, sem malícia: “O que é isso que está agindo em mim?”. Ele respondeu: “Você é pesada e por isso resolvi desbastar um tanto de sua carne”. Disse isso e concluiu a safadeza com ela. Em seguida, tornou a erguê-la do chão e colocou-a nos ombros. Ele havia percorrido uma pequena extensão do caminho, quando a velha disse: “Se você acha que meu peso ainda está insuportável, ponha-me no chão e desbaste mais carne de meu corpo”.

Esta fábula mostra que alguns homens saciam um desejo pessoal e, depois, alegam que praticaram a ação inocentemente, tentando passar a ideia de que, premidos pela necessidade, praticaram outra coisa, e não aquela que deveras praticaram.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 448-449

Esopo 319

Os rapazotes e o açougueiro

Dois rapazotes foram a um açougue comprar carne e, enquanto o açougueiro estava distraído, um deles roubou um pé de porco e enfiou-o sob as dobras da veste do outro. Quando o açougueiro deu por fé, começou a procurar o pé de porco e passou a acusar os rapazes. Mas aquele que pegou jurava que não estava com ele e o outro, que estava com o pé de porco, jurava que não o tinha pegado. E o açougueiro, ao perceber a malandragem, disse: “Mas ainda que vocês se safem de mim por meio de falsos juramentos, dos deuses vocês não vão se safar de jeito nenhum!”.

A fábula mostra que a impiedade do perjúrio é a mesma, ainda que sob o disfarce de sofismas.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 450

Esopo 320

A raposa ajudante do leão

Fábula da raposa, que exorta a não sonhar muito alto.

Uma raposa era companheira de um leão na qualidade de sua ajudante: ela farejava as caças e ele caía sobre elas, agarrando-as. Decerto, cada um deles recebia uma porção, separada em conformidade com o mérito. Mas a raposa, tomada de inveja do leão por causa de suas porções maiores, achou melhor ir à caça em vez de farejar, e quando foi agarrar um animal de um rebanho viu-se como o principal alvo de perseguição dos caçadores.

É melhor servir em segurança do que exercer o mando em desamparo.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 451

Esopo 321

A raposa ao ver um leão

Uma raposa que jamais tinha visto um leão deparou acidentalmente com um e, por ser a primeira vez que o via, ficou tão perturbada que quase morreu. Já na segunda vez que topou com ele, sentiu medo, sim, mas não tanto como da primeira vez. E, ao vê-lo pela terceira vez, foi tão ousada que até chegou perto e conversou com ele.

A fábula mostra que o hábito suaviza até as coisas aterradoras.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 454