Fedro 2.1

O novilho, o leão e o ladrão

Um leão estava de pé sobre um novilho abatido.

Um ladrão intervém, reclamando uma parte.

“Eu te daria” diz “se não tivesses o costume de pegar por ti mesmo”;

e rechaçou o malandro. Casualmente, um inofensivo

viajante chegou ao mesmo local 5

e, ao ver o feroz animal, retrocedeu.

E aquele lhe diz pacificamente: “Não há por que temer;

e pega sem medo a parte que lhe é devida

por tua modéstia.” Então, repartida a presa,

dirigiu-se à floresta, para deixar o caminho livre ao homem. 10

Um exemplo perfeitamente egrégio e louvável;

porém a ambição é rica e o recato, pobre.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 2.2

A velha e a garota que amavam um jovem

Que os homens são de todo modo espoliados pelas mulheres,

amem ou sejam amados, aprendemos certamente pelos exemplos.

Uma mulher não inexperiente, ocultando seus anos

com elegância, amava um certo homem de idade mediana

e desse mesmo homem uma linda jovem tinha conquistado o coração.5

As duas, querendo parecer iguais a ele na idade,

começaram a arrancar alternadamente os cabelos do homem.

Este, que achava que era cuidado pelo capricho das mulheres,

de repente ficou careca; pois a garota tinha arrancado

pela raiz os brancos e a velha, os negros. 10

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 2.3

Esopo para um certo sujeito sobre o êxito dos maus.

Um sujeito, ferido pela mordida de um cachorro bravo,

tacou para o maléfico um pedaço de pão tingido com seu sangue,

porque tinha ouvido dizer que era o remédio para o ferimento.

Então Esopo disse assim: “Não faças isso diante de mais cães,

para que eles não nos devorem vivos, 5

quando souberem ser tal o prêmio da má-ação.”

O êxito dos maus alicia a muitos.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 2.4

A águia, a gata e a javalina

Uma águia tinha feito o ninho na ponta de um cipreste;

uma gata, tendo encontrado um oco no meio do tronco, tinha parido ali;

uma porca habitante do bosque tinha dado cria na parte de baixo.

Então a gata, com fraude e maldade criminosa, destruiu assim

esse casual convívio. 5

Sobe até o ninho da ave e diz: “É preparada uma desgraça

para ti, talvez também para a infeliz de mim.

Pois como vês a javalina traiçoeira cavar a terra todo dia,

ela quer derrubar o carvalho,

para facilmente oprimir a nossa prole no chão.” 10

Espalhado o terror e perturbados os sentidos,

desceu até o quartinho da peluda porca;

“Teus filhos estão em grande perigo”, diz.

“Pois logo que saíres para pastar com sua tenra prole,

a águia está preparada para te arrebatar os porquinhos.” 15

Depois de ter enchido de medo também esse lugar,

a pérfida se escondeu em sua segura cavidade.

Em seguida, saiu à noite na ponta dos pés,

depois que se encheu de alimento a si e à sua prole,

fingindo pavor, fica de guarda o dia todo. 20

A águia, temendo a queda, fica pousada nos ramos;

a javalina, evitando a rapina, não se dirige para fora.

Para que dizer mais? Morreram com os seus de inanição

e ofereceram aos filhotes da gata um amplo banquete.

De quanto de mal um homem pérfido frequentemente causa, 25

a tola credulidade pode aqui ter uma prova.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 2.5

César para um escravo atriense

Há em Roma uma certa raça de intrometidos,

indo apressadamente de um lado para o outro, ocupada no ócio,

se cansando de graça, fazendo muitas coisas sem fazer nada,

molesta para si mesma e bastante odiosa para os outros.

Quero corrigi-la, se é que eu posso, 5

com esta fabulazinha verídica; vale a pena prestar atenção.

Como Tibério César, dirigindo-se a Nápoles,

tivesse chegado em sua casa de campo em Misena,

a qual, construída pela mão de Luculo no cume da montanha,

olha para frente o mar da Sicília e para trás o mar Tirreno, 10

um dos escravos atrienses cingidos com o cinto alto,

que tinha solta desde os ombros uma túnica

de linho de Pelúsio, com as franjas pendentes,

estando o seu dono passeando pelos alegres vergéis,

começou a molhar com um regador de madeira 15

a terra escaldante, ostentando um prestativo serviço;

mas é caçoado. Daí, por atalhos conhecidos,

corre até a outra calçada, fazendo assentar a poeira.

César reconheceu o homem e entendeu a questão.

Como julgou ser aquilo não sei o que de bom, 20

diz o dono: “Olá!” Aquele, com efeito, dá um pulo,

entusiasmado pela alegria de uma gratificação garantida.

Então assim se divertiu a tão grande majestade de um dirigente:

“Não fizeste muito e teu trabalho pereceu em vão;

comigo os tapas são vendidos por um preço muito maior”. 25

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 2.6

A águia e a gralha

Contra os poderosos ninguém está suficientemente protegido;

mas se se acrescenta um conselheiro maléfico,

tudo aquilo que a força e a maldade atacam desmorona.

Uma águia levou para o alto uma tartaruga.

Como esta tivesse escondido o corpo em sua casa cascosa 5

e, oculta, não pudesse de nenhum modo ser ferida,

veio pelos ares uma gralha e, voando perto, [disse]:

“Sem dúvida apanhaste com as garras uma magnífica presa;

mas se eu não mostrar o que deve ser feito por ti,

ela te cansará em vão com seu grande peso.” 10

Tendo-lhe sido prometida uma parte, persuade-a

a lançar do alto do céu sobre o rochedo o duro casco

e, com ele despedaçado, comer facilmente o alimento.

A águia, induzida por essas palavras, obedeceu aos conselhos

e logo repartiu generosamente a refeição com a mestra. 15

Assim, aquela que tinha sido protegida pelo dom da Natureza,

sozinha contra duas, morreu triste morte.

Como citar este documento:FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 2.7

Dois burros e os ladrões

Iam dois burros carregados de fardos;

um levava cestos com dinheiro,

o outro, sacos estufados de muita cevada.

Enquanto aquele, rico por sua carga, se destaca pela cabeça erguida

e ostenta no pescoço um sonoro sininho; 5

o companheiro segue num passo silencioso e tranquilo.

De repente, surgem de emboscada ladrões

e em meio ao ataque, ferem com a espada o mulo,

roubam as moedas e desprezam a cevada sem valor.

Então, como o espoliado chorasse seus infortúnios, 10

diz o outro: “Na verdade, alegro-me de ter sido desprezado;

pois nada perdi, nem sofri ferimento algum.”

Por este argumento, a pobreza dos homens é segura,

as grandes riquezas estão sujeitas ao perigo.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 2.8

O cervo junto aos bois

Um cervo, enxotado de seus esconderijos no bosque,

para fugir da iminente morte por caçadores,

dirigiu-se em seu cego medo a uma chácara próxima

e se refugiou em um oportuno curral.

Aí um boi diz ao que se escondia: “O que quiseste para ti, 5

infeliz, tu, que correste espontaneamente para a morte

e confiaste tua vida ao teto dos homens?”

Mas ele suplicante: “Vós”, diz, “poupai-me apenas;

dada a ocasião, sairei novamente”.

A vez da noite toma o lugar do dia. 10

O vaqueiro traz a forragem, e nada vê.

Vão e vêm, em seguida, todos os camponeses,

ninguém nota; passa também o caseiro,

nem ele percebe coisa alguma. Então o animal, alegrando-se,

começou a agradecer os bois silenciosos, 15

por terem prestado hospitalidade num momento adverso.

Respondeu um: “Na verdade te desejamos salvo,

mas se vier aquele que tem cem olhos,

tua vida estará em grande perigo”.

Nisso, o próprio dono volta do jantar 20

e, como tinha visto há pouco que os bois estavam emagrecendo,

aproxima-se do estábulo: “Por que há pouca forragem,

Faltam palhas? Que trabalhão é tirar

essas teias de aranha?” Enquanto examina cada coisa,

vê também os altos chifres do cervo; 25

convocada a criadagem, ordena que seja morto

e leva a presa. Esta fábula quer dizer

que o dono vê muito mais em seus negócios.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 2.ep

O autor

Os Áticos fizeram uma estátua ao talento de Esopo

e colocaram o escravo numa base eterna,

para que todos soubessem que o caminho da honra está aberto

e que a glória não é atribuída à linhagem, mas à virtude.

Visto que ele ocupara esse lugar e nenhum outro fosse o primeiro, 5

o que me restou foi esforçar-me para que ele não ficasse só.

E isso não é inveja, mas emulação.

E se o Lácio for favorável ao meu esforço,

terá mais autores para opor à Grécia.

Se a Inveja quiser criticar o meu trabalho, 10

não me tirará, contudo, a consciência do louvor.

Se o nosso zelo chega a uns ouvidos cultos

e o espírito aprecia as fábulas inventadas com arte,

a minha felicidade afasta todo queixume.

Se, porém, meu douto trabalho topa com charlatães, 15

que a natureza sinistra trouxe à luz,

e não podem criticar nada a não ser os melhores,

suportarei com o coração endurecido a fatal desgraça,

até que a fortuna se envergonhe de seu crime.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.