Fedro 4.20

A serpente nociva para o misericordioso

Quem leva ajuda aos maus, depois de um tempo sofre.

Um sujeito pegou do chão uma cobra enrijecida pelo gelo

e a aquece no regaço, ele próprio misericordioso contra si;

pois, assim que ela se refez, matou o homem imediatamente.

Como uma outra lhe perguntasse a causa da má ação, 5

respondeu: “Para ninguém aprender a ser útil aos malvados”.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 4.21

A raposa e víbora

Uma raposa, ao cavar o seu covil, enquanto tirava a terra

e fazia muitas galerias muito profundas,

chegou ao recôndito antro de uma víbora

que guardava tesouros ocultos.

Assim que a avistou: “Primeiro peço-te que concedas perdão 5

para a minha imprudência; depois, já que vês perfeitamente

o quanto o ouro não é conveniente para a minha vida,

que me respondas com benevolência: que fruto obténs

deste trabalho ou quão grande é a recompensa

para que te prives do sono e passes a vida nas trevas?” 10

“Nenhuma” diz aquela, “mas isto me foi incumbido

pelo supremo Júpiter”. “Então nem tiras para ti

nem doas nada a ninguém?” “Assim agrada aos Fados”.

“Não quero que fiques brava, se eu disser francamente:

nasceu com os deuses irados quem é semelhante a ti”. 15

Tu, que hás de partir para onde partiram os antepassados,

por que, com a mente cega, torturas a tua vida desgraçada?

Digo a ti, avarento, alegria de teu herdeiro, que enganas

os deuses com incenso e a ti próprio com comida,

que ouves triste o som musical da cítara, 20

a quem aflige a alegria das flautas,

a quem os preços dos alimentos arrancam um gemido,

que, enquanto amontoas centavos ao teu patrimônio,

aborreces o céu com sórdido perjúrio,

que aparas toda despesa do funeral 25

para que a Libitina não tenha algum lucro com o que é teu.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 4.22

Fedro

O que a má inveja pensa julgar,

ainda que ela disfarce, entendo perfeitamente bem.

Tudo que julgar ser digno da memória

dirá que é de Esopo; se algo lhe agradar menos

sustentará com qualquer aposta que foi inventado por mim. 5

Essa mentira eu quero refutar já agora com minha resposta:

quer esta obra seja tola, quer mereça ser louvada

quem inventou foi ele, a nossa mão deu o acabamento.

Mas prossigamos a ordem proposta de nosso projeto.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 4.23

Sobre Simônides

O homem sábio sempre tem em si as riquezas.

Simônides, que escreveu notáveis poemas líricos,

para mais facilmente aliviar sua probreza,

começou a percorrer as ilustres cidades da Ásia,

cantando o louvor dos vencedores, em troca de pagamento. 5

Depois que tornou-se rico com esse tipo de ganho,

quis voltar para sua pátria por via marítima;

ele tinha nascido, segundo dizem, na ilha de Ceos.

Subiu em um navio que uma terrível tempestade

junto com sua velhice destruíram no meio do mar. 10

Uns recolhem suas bolsas, outros suas coisas valiosas,

sustentáculo de sua vida. Um certo sujeito muito curioso:

“Simônides, tu não pegas nada de teus bens?”

“Tudo o que é meu está comigo”, diz. Poucos se salvam a nado,

pois a maioria deles pereceu, afundados pelo peso da carga. 15

Chegam os ladrões, roubam o que cada um salvou,

deixam-nos pelados. Por acaso, perto de Clazômenas

havia uma antiga cidade, para onde os náufragos se dirigiram.

Aí, um certo sujeito dedicado ao estudo das letras,

que tinha lido muitas vezes os versos de Simônides 20

e era o maior admirador dele, mesmo quando ausente,

reconhecendo-o por sua fala, com o maior entusiasmo

acolheu-o em sua casa; proveu o homem de veste,

dinheiro, criados. Os demais levam seus quadros,

pedindo comida. Assim que por acaso os viu, 25

Simônides diz: “Eu disse que tudo o que é meu

está comigo; o que vós pegastes pereceu”.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 4.24

A montanha dando à luz

Uma montanha estava parindo, soltando gemidos medonhos,

e havia na terra a maior expectativa.

Mas ela deu à luz um rato. Isto foi escrito para ti,

que, embora ameaces grandes coisas, não resolves nada.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 4.25

A formiga e a mosca

[A fabulazinha recomenda a não fazer nada que não seja útil.]

Uma formiga e uma mosca disputavam acaloradamente

quem era mais importante. A mosca começou primeiro assim:

“Tu podes comparar-te com as minhas glórias?

Moro entre os altares, percorro todos os templos; 5

quando se imola, provo antes as vísceras dos deuses;

sento na cabeça do rei quando acho bom,

e toco de leve os castos lábios das matronas;

não trabalho em nada e desfruto das melhores coisas.

O que semelhante a isso acontece para ti, rústica?” 10

“É glorioso, sem dúvida, o banquete dos deuses,

mas para quem é convidado, não para quem é odiado.

Frequentas os altares? Na certa és enxotada quando chegas.

Mencionas os reis e os lábios das matronas;

Ainda por cima te gabas de coisa que o pudor deve ocultar. 15

Não trabalhas em nada, por isso, quando necessário, nada tens.

Enquanto aplicadamente eu amontoo o grão para o inverno,

te vejo alimentar-te no esterco ao redor do muro;

quando os frios te obrigam a morrer enrijecida,

a mim me acolhe sã e salva uma casa bem provida. 20

Me importunas no verão; quando é inverno, ficas em silêncio.

Sem dúvida, rebati bem a tua soberba”.

Tal fabulazinha distingue as características dos homens,

daqueles que se adornam com falsos louvores

e daqueles cuja virtude exibe uma sólida honra. 25

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 4.26

O poeta

O quanto valiam as letras entre os homens

eu disse mais acima; agora transmitirei à memória

quanta honra lhes foi outorgada pelos deuses.

Aquele mesmo Simônides de quem falei,

contratado por um preço determinado para escrever 5

o elogio de certo pugilista vitorioso, buscou um local secreto.

Como o precário assunto freasse sua inspiração,

o poeta se valeu do costume e da licença

e interpôs os astros gêmeos de Leda,

mencionando o prestígio de uma glória semelhante. 10

A obra aprovou; mas ele recebeu a terça parte

do pagamento. Como reclamasse o restante:

“Te darão aqueles”, diz, “dos quais são duas partes do louvor.

Mas, para que não penses que tu foste iradamente dispensado,

promete vires ao meu jantar; quero convidar parentes 15

e tu para mim estás no número deles”.

Ainda que enganado e sofrendo com a injustiça,

para não perder a estima dele, mal disfarçando,

prometeu ir. Voltou na hora marcada, tomou seu lugar à mesa.

O banquete resplandecia festivamente com os copos, 20

a casa alegre ressoava com o grande aparato,

quando de repente dois jovens, cobertos de poeira,

banhando com o suor abundantemente seus corpos,

de uma beleza sobre-humana, ordenam a um certo criadinho

que chame Simônides para junto deles; 25

que era do interesse dele que não demorasse.

O homem, perturbado, chama Simônides. 28

Mal ele tinha tirado um pé do triclínio, 27

a queda da abóboda subitamente esmagou os demais;

nenhuns jovens foram encontrados junto à porta. 30

Assim que se espalhou a ordem do fato narrado,

todos souberam que a presença dos deuses

tinha dado ao poeta a vida como pagamento.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.