Esopo 244

Os lobos, os cordeiros e o carneiro

Lobos enviaram embaixadores aos cordeiros para combinar com eles uma paz duradoura, desde que pudessem pegar os cães e destruí-los. E os cordeiros, tolos, concordaram com isso. Mas um carneiro velho observou: “Como vou confiar e conviver com vocês se, mesmo com cães me guardando, não consigo pastar em segurança?”.

[A fábula mostra] Que a pessoa não deve se despir de uma condição estável, fiando-se em juramentos de inimigos irreconciliáveis.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 349

Esopo 245

A macaca e seus filhotes

Dizem que as macacas geram dois filhotes e que a um deles dão afeto e criam com dedicação, ao passo que rejeitam o outro e não cuidam dele. Acontece que, por uma fatalidade divina, aquele que é tratado com afeto morre, enquanto o outro, o rejeitado, desenvolve-se bem.

A fábula mostra que a fatalidade é mais poderosa que qualquer previdência.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 353

Esopo 246

O macaco e a camela dançarinos

Numa reunião de animais irracionais, um macaco se levantou e se pôs a dançar. E, como estava agradando e todos apontavam para ele, uma camela ficou enciumada e quis alcançar o mesmo sucesso. Então, levantou-se e tentou dançar também. Mas, como ela executava movimentos extravagantes, os animais perderam a paciência e a expulsaram a porretadas.

A fábula é oportuna para os invejosos que rivalizam com os superiores e, por conseguinte, se dão mal.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 354

Esopo 247

O macaco e os pescadores

Um macaco, empoleirado no alto de uma árvore, avistou pescadores à beira do rio lançando a rede e ficou observando o que é que eles faziam. E assim, quando eles recolheram a rede e se afastaram dali para comer os peixes, o macaco desceu da árvore e tentou lançar a rede, pois dizem que esse animal é imitador. Ao manejar as redes, porém, ficou preso. Então ele disse para si: “Mas é bem-feito para mim! Por que é que eu, que não sei pescar, me meti a fazer isso?”.

A fábula mostra que pôr-se a fazer coisas que não convém é não só inútil como também danoso.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 355

Esopo 248

O macaco eleito rei e a raposa

Numa assembleia de animais irracionais, um macaco teve bom acolhimento e foi eleito rei por aclamação. Uma raposa, porém, sentiu inveja e, quando viu uma porção de carne deixada numa armadilha, levou o macaco até lá, alegando que havia encontrado um tesouro, do qual ela própria não fizera questão, mas o havia preservado para ele, como presente régio, e exortou-o a pegá-lo. O macaco, despreocupadamente, se aproximou e foi apanhado pela armadilha. E, depois, ficou acusando a raposa de ter-lhe preparado uma cilada. Ela respondeu: “Pois você, macaco, que é tão ingênuo assim, é o rei dos animais?”.

Assim, aqueles que empreendem tarefas irrefletidamente, além de fracassarem, são alvos de zombaria.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 356

Esopo 249

O mandão e os marinheiros

Certa vez um mandão fazia uma viagem de navio, debaixo de uma tempestade, e, enfastiado, disse para os marinheiros, que estavam remando sem muito vigor por causa da tormenta: “Ô, marinheiros, se não conduzirem mais depressa o navio, vou acabar com vocês a pedradas!”. Então um deles retrucou: “Quem dera estivéssemos num lugar onde fosse possível recolher pedras!”.

Portanto, nós igualmente devemos suportar, em relação às nossas vidas, os danos mais leves, para escaparmos dos mais pesados.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 357

Esopo 250

O marido e a esposa intratável

Um homem que tinha uma esposa por demais intratável para com os servos domésticos quis saber se com os criados da casa paterna ela se comportava do mesmo modo. Então, arrumou um bom pretexto e despachou-a para a casa do pai. Após alguns dias ela retornou e ele quis saber como é que os servos a tinham recebido. “Os vaqueiros e os pastores me olhavam torto”, respondeu ela. O homem respondeu: “Mas se você, mulher, se dava mal com eles, que levam os animais ao pasto de manhãzinha e só voltam ao anoitecer, o que se deve esperar quando se trata daqueles com quem você convivia o dia todo?”.

Assim, muitas vezes, a partir das pequenas coisas se deduzem as grandes, e das evidentes, as ocultas.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 358

Esopo 251

O médico incompetente

Um médico incompetente acompanhava um enfermo e, enquanto os outros médicos diziam ao doente que ele não corria perigo e que apenas ia continuar com a doença por um longo tempo, ele foi o único a recomendar ao paciente que fizesse seus preparativos, “pois de amanhã você não passa”. Disse isso e retirou-se. Depois de um certo tempo, o doente se levantou e saiu, mesmo pálido e caminhando com dificuldade. O médico, ao topar com ele, disse: “Salve! Como vão os moradores das regiões infernais?”. E o outro respondeu: “Estão serenos, pois beberam da água do rio do Esquecimento. Mas, não faz muito tempo, a Morte e o deus Hades estavam planejando castigos terríveis a todos os médicos, porque eles não deixam morrer os doentes, e estavam anotando os nomes de todos eles. Iam registrar até o seu nome, mas eu me prostrei em súplica diante deles e jurei que você não era médico de verdade e que tinha sido incriminado sem razão”.

A presente fábula põe em tela os médicos despreparados, ignorantes e de conversa elaborada.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 359

Esopo 252

O médico no funeral

Enquanto acompanhava o enterro de um parente, um médico dizia aos que seguiam o cortejo: “Esse homem, se fizesse abstinência de vinho e tivesse feito lavagem intestinal, não teria morrido”. Um dos presentes, então, lhe disse: “Mas você não devia dizer isso agora, que não adianta mais! Devia ter-lhe feito essas recomendações anteriormente, quando ele podia tê-las aproveitado”.

A fábula mostra que devemos prestar socorro aos amigos nos momentos de necessidade, e não dizer ironias depois do desengano dos fatos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 360

Esopo 253

O menininho que vomitava tripas

Um grupo de pessoas estava no campo imolando um boi e convidou para a refeição os moradores da vizinhança, entre os quais havia uma mulher pobretona, que veio acompanhada do filho. No decorrer da festança, o menininho, que depois de algum tempo começou a se empanturrar de tripas e de vinho, ficou com a barriga estufada e disse, sentindo-se mal: “Mãe, vou vomitar as tripas!”. E a mãe lhe replicou: “As suas, não, filhote, mas as que você comeu!”.

Esta fábula cai bem para um homem devedor, que está sempre pronto para tomar os pertences alheios, mas quando tem que devolvê-los aflige-se de tal modo como se estivesse entregando seus próprios pertences.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 361